Artigo Original 2 - Conhecimentos e Práticas de Pessoas Estomizadas: Um Subsídio para o Cuidar em Enfermagem

Authors

  • Antônio Bruno dos Santos Castro Acadêmico de enfermagem do 8° período do Centro de Ensino Unificado de Teresina (CEUT)
  • Claudia Daniella Avelino Vasconcelos Benício Mestre em Enfermagem (UFPI), Prof. UFPI/UESPI, Especialista em Estomaterapia (UECE), Esp. em Administração Hospitalar (UNAERPSP)
  • Denise da Cruz Carvalho Acadêmica de enfermagem do 8° período do Centro de Ensino Unificado de Teresina (CEUT)
  • Nayara Fernanda Monte Professora Esp. do Centro de Ensino Unificado de Teresina (CEUT)
  • Maria Helena Barros Araújo Luz Professora Doutora da UFPI, Especialista em Estomaterapia (USP)

Abstract

Atualmente, existe um grande número de indivíduos estomizados em virtude de situações que acometem o trato intestinal ou urinário, como patologias e incidentes; estes últimos muitas vezes provocados pela crescente violência urbana. Essas pessoas necessitam conviver com um estoma em caráter temporário ou definitivo, sendo necessária a adoção de práticas e cuidados específicos. Objetivou-se neste estudo descrever o conhecimento de pessoas estomizadas sobre suas estomia e identificar os cuidados realizados por essas pessoas com seu estoma. De abordagem metodológica qualitativa, a pesquisa realizou-se no período de 02 a 13 de abril de 2013, no Centro Integrado de Saúde Lineu Araújo – CISLA, no município de Teresina/PI. A amostra constou de 10 participantes, sendo 6 masculinos e 4 femininos, com idade entre 25 a 82 anos, com bolsa drenável. Obtiveram-se os dados por meio de entrevista semi-estruturada e gravada em MP3. A coleta iniciou após a aprovação prévia da instituição e do consentimento dos participantes. Após a leitura das entrevistas destacaram-se algumas respostas que foram distribuídas em quatro categorias: A estomia na percepção dos estomizados, Convivendo com o estoma, Autocuidado com a estomia e Rede de apoio ao estomizado. A maioria dos entrevistados apresentou conhecimento restrito e elementar sobre a estomia e quanto ao autocuidado.Descritores: Estomia. Enfermagem. ConhecimentoAbstractThere is currently a large number of individuals with an ostomy due to life events involving the intestinal or urinary tract, such as diseases and incidents often caused by increasing urban violence. These patients need to live with a temporary or permanent stoma, which requires specific care and management. The objective of this study was to describe the knowledge of patients about their ostomy and identify self-care practices of this population. This qualitative study was conducted from April 2 to 13, 2013 at the “Lineu Araújo” Integrated Health Center (CISLA) in the city of Teresina (Piauí, Brazil). The sample consisted of 10 ostomy patients (6 men and 4 women), 25 to 82 years of age, wearing a drainable pouch. After institutional approval and informed consent, data were obtained through a semi-structured interview, which was recorded in MP3. Using thematic discourse analysis, the following four categories were defined: Patient perception of the ostomy, Living with a stoma, Ostomy self-care, and Support network for the ostomy patient. Most participants had limited knowledge about the ostomy and self-care.Descriptors: Ostomy. Nursing. Knowledge.ResumenActualmente existe un gran número de individuos con ostomía debido a situaciones que afectan el tracto intestinal o urinário, como enfermedades e incidentes; estos últimos a menudo causados por el aumento de la violencia urbana. Estas personas necesitan vivir con un estoma temporal o permanente, se requiere la adopción de prácticas y cuidados específicos. El objetivo de este estudio fue describir el conocimiento de los pacientes acerca de su propia ostomía e identificar los cuidados de las mismas con su propio estoma. Enfoque cualitativo. La investigación se llevó a cabo del 02 al 13 abril de 2013, en el Centro Integrado de Salud Lineu Araújo - CISLA en la ciudad de Teresina / PI. La muestra estuvo conformada por 10 participantes, 6 hombres y 4 mujeres, con edades entre 25-82 años, con una bolsa drenable. Se obtuvieron datos a través de entrevistas semiestructuradas y grabados en formato MP3. La recolección de los datos se inició después de la aprobación del proyecto en la institución mencionada y el consentimiento de los participantes. Durante el análisis de las entrevistas se destacaron algunas de las respuestas que se dividieron en cuatro categorías: la ostomía segun la percepción de los ostomizados, conviviendo con el estoma, cuidado con el estoma y el soporte al ostomizado. La mayoría de los entrevistados tenían un conocimiento limitado y básico acerca de la ostomía y al propio autocuidado.Palabras clave: ostomía. Enfermería. Conocimiento.IntroduçãoAtualmente existe um grande número de indivíduos estomizados em virtude de situações que acometem o trato intestinal ou urinário, como patologias e incidentes, estes últimos muitas vezes provocados pela crescente violência urbana. Essas pessoas necessitam conviver com um estoma em caráter temporário ou definitivo, sendo necessária a adoção de práticas e cuidados específicos. À submissão de um estoma significa intervenção cirúrgica para extração de uma porção do tubo digestivo, o intestino, e na abertura de um orifício externo, estoma, tendo como finalidade o desvio do trânsito intestinal para o exterior (1).A modalidade do procedimento caracteriza-se como Colostomia se realizado na porção do colón e Ileostomia caso a parte atingida seja o íleo. A urostomia é realizada nos casos em que a necessidade de intervenção cirúrgica objetive o desvio do trato urinário 2. Essas cirurgias são realizadas para tratar enfermidades intestinais inflamatórias, prolapso retal irreparável, disfunções neurológicas graves, traumatismos que afetam o reto e esfíncter anal, atrofia vesical, diverticulite e, principalmente, neoplasias do colón, reto e bexiga, quando a cirurgia conservadora e outros tratamentos não forem eficazes ou caso o cliente desenvolva complicações agudas como obstrução, abscesso ou fístulas (2).A colostomia é indicada, principalmente para descomprimir, drenar, aliviar tensões de anastomoses intestinais (união de parte do intestino com outra região do intestino) e proteger suturas de um órgão danificado, no caso o intestino grosso. Assim, os estomas intestinais, geralmente são realizados para evitar que as fezes passem pelo local operado antes da cicatrização completa, evitando-se infecções nos pontos de sutura (3).Apontam-se que, além dos problemas comumente enfrentados pelos pacientes que são submetidos a uma cirurgia, os estomizados enfrentam outros, tais como a exposição a uma série de constrangimentos sociais, pela possibilidade de saída dos gases e vazamento de excrementos mediante a inexistência de controle voluntário, e pela falha na segurança e qualidade da bolsa coletora, o que provoca o medo de exposição em público por parte desses pacientes (4).As bolsas para estomia são usadas aderidas à pele que circunda o estoma e servem para coletar os excrementos intestinais ou urinários. Há vários tipos, e são indicados de acordo com a localização do estoma, da pessoa e tipo de material a receber. Essas bolsas coletoras podem ser drenáveis ou não, opacas ou transparentes e em uma ou duas peças (5), fechadas ou abertas, respectivamente.Nesse sentido, a assistência realizada por uma equipe multiprofissional contribuirá para uma melhor adaptação do estomizado à nova condição de vida, fortalecendo os vínculos existentes com seus familiares e profissionais, repercutindo positivamente no processo de reabilitação e no fortalecimento da autoestima da pessoa, que possivelmente assumirá o autocuidado favorecendo uma maior aquisição de conhecimento e práticas sobre o conceito que a pessoa tem de si mesma (6).Para melhor convivência dos pacientes com seus estomas e realização do autocuidado, faz-se necessário a educação continuada em saúde, que é compreendida como o acúmulo de experiências de assimilação à capacitação básica inicial, com uma gama de meios e métodos que adequam às necessidades concretas de cada paciente. Sendo assim, é fundamental que os profissionais de saúde que prestam assistência a estes pacientes estejam devidamente preparados para fornecer estas informações (7).Diante dessa problemática, propõe-se com este estudo conhecer como os estomizados cuidam de seus estomas. Este conhecimento servirá para orientar uma assistência direcionada aos clientes ao longo processo de adaptação a um estoma, que se inicia no período pré-operatório e perdura mesmo após a cicatrização cirúrgica, requerendo continuamente cuidados e atenção de uma equipe de saúde multiprofissional.O interesse pelo tema surgiu a partir de experiência dos pesquisadores, enquanto acadêmicos de enfermagem, em um hospital de rede privada com pacientes estomizados. Ao ouvir o relato por parte dos pacientes de como foram suas adaptações, como vivem e que cuidados realizam com sua estomia, percebeu-se que apesar de terem conhecimentos sobre seu estoma, ainda assim, observaram-se diversas dificuldades enfrentadas pelos mesmos, gerando problemas que dificultavam suas rotinas diárias.A expressão do conhecimento tem grande abrangência em inúmeros aspectos da subjetividade e envolve percepções e significados que sofrem influência também da cultura, por isso, sentiu-se a necessidade de estudar o conhecimento e as experiências vivenciadas pela pessoa estomizada, para que os profissionais possam desenvolver ações direcionadas às necessidades particulares de cada um, a fim de que este possa ser tratado em sua individualidade como único.Pretende-se, com este estudo, apresentar subsídios que poderão oferecer suporte aos profissionais de saúde, no âmbito teórico-prático no que concerne o autocuidado de pessoas estomizadas. Neste sentido, facilitará a edificação de conhecimentos e práticas dos pacientes com estoma, para que se possam desenvolver planos, melhorando a assistência prestada tanto pelos profissionais enfermeiros da instituição, como também qualquer outro profissional de saúde. Este trabalho deixará ainda à disposição dados para novas pesquisas para que se conquiste a produção de novos conhecimentos.ObjetivosDescrever o conhecimento de pessoas estomizadas sobre estoma. Identificar os cuidados que os pacientes estomizados realizam com o seu estoma.MétodosTrata-se de um estudo descritivo de natureza metodológica qualitativa, que tem por finalidade descrever e documentar os aspectos de uma situação, além de explorar as dimensões de um fenômeno. A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, preocupando-se com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, trabalha com um universo de significados, motivos, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis, estando incluída aos significados que as pessoas atribuem às suas experiências e como compreendem essas experiências dentro do mundo social (8,6).O estudo foi realizado no ambulatório do Centro Integrado de Saúde Lineu Araújo CISLA, onde funciona o Programa de Assistência ao Estomizado, na cidade de Teresina-PI, que tem por finalidade orientar os usuários, bem como distribuir bolsas e dispositivos necessários às pessoas estomizadas em todo o estado. Foram observados especialmente os aspectos éticos, sendo que a coleta de dados foi marcada com antecedência por telefone, com dia e hora determinada pela instituição e disponibilidade do paciente.O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Teresina-PI sob o protocolo Nº 14258/2012, representado por 10 pacientes de ambos os sexos, submetidos a um estoma, com idade entre 25 a 82 anos, cadastrados no Programa de Assistência ao Estomizado.Os dados foram coletados no período de 02 a 13 de abril de 2013. Para obtenção das informações foi utilizada a entrevista do tipo semiestruturada e o questionário de perguntas teve como base questões norteadoras que buscam alcançar os objetivos do estudo: Fale o que você sabe sobre estoma? Como você convive com a sua estomia? Como você cuida do seu estoma? Os indivíduos que atenderam aos critérios do estudo foram informados sobre as implicações destes e assinaram um termo de Consentimento Livre e Esclarecido, obedecendo aos critérios da Resolução nº 466/12, garantindo o anonimato, bem como não haver prejuízos pela não participação ou desistência.A fim de garantir o anonimato das pessoas entrevistadas, modificaram-se seus nomes por nomes de “depoentes”. Após a transcrição das entrevistas, as respostas foram lidas oito vezes e extraídas dessas os esclarecimentos relevantes que foram agrupados em categorias de acordo a similaridade semântica observada nas expressões oriundas das falas dos depoentes.Resultados e Discussão

<(1)

Foram identificados seis (6) indivíduos com estomas definitivos e quatro (4) com estomas temporários, sendo que 60% (6) tiveram como motivo para realização da estomia o câncer retal. Quanto ao tipo de estomia oito (8) eram colostomias e duas (2) ileostomias. Com relação ao tempo de estomizado, o menor tempo foi de 1 ano e 3 meses e o maior, 10 anos. Após a análise dos discursos dos sujeitos foram identificadas quatro (04) categorias que agruparam semelhanças de sentidos: A estomia na percepção dos estomizados, Convivendo com o estoma, Autocuidado com o estoma e Rede de apoio ao estomizado.Quanto à categoria “A estomia na percepção dos estomizados” observou-se que, quando questionados sobre o que sabiam a respeito dos seus estomas, as falas dos sujeitos restringiram-se ao próprio procedimento cirúrgico realizado para o desvio do trajeto dos efluentes. Conforme podemos observar nas falas abaixo:[...] Eu não sei nada! É sério! Eu não sei nada! [...] (D3).[...] O médico disse que ia fazer um desvio do intestino porque eu não tinha condição de ficar sem a bolsa, viu. [...] (D5).[...] Eu tava com dificuldade de fazer cocô, né. Pois é, aí foi quando eles descobriram e fizeram a colostomia, fizeram desvio, o estoma é porque tava fechado o reto e aí foi preciso mudar [...] (D7).Diante das falas percebeu-se a dimensão do conhecimento precário que envolve o portador de estomia frente à problemática no que diz respeito à realização de um preparo cirúrgico inadequado tanto no pré-operatório mediato, imediato e pósoperatório, dificultando a identificação da percepção da vivência da pessoa estomizada.O pré e pós-operatório mediato e imediato são importantes nessas fases do tratamento cirúrgico por que se alicerçam no processo de reabilitação e caracterizam-se pela continuidade das atividades assistenciais contínuas prestadas pelos integrantes da equipe de saúde, especialmente o enfermeiro contribuindo para uma interação a cerca da sua problemática (9).Quando uma pessoa passa a ser portadora de uma estomia, sofre alterações significativas e impactantes no seu cotidiano, repercutindo muitas vezes, negativamente, em vários aspectos, podendo ainda ser mais traumático quando não se tem uma assistência voltada para o problema, ou mais aceitável com o passar do tempo, quando se tem um acolhimento e preparo específico para o enfrentamento dessa nova mudança de vida. Percebeu-se que a enfermagem precisa aprofundar seus conhecimentos sobre estomia para que possa auxiliar estes pacientes a enfrentar esta experiência como elementos ativos do processo e não apenas como expectadores das ações dos profissionais de saúde.Referente à segunda categoria “Convivendo com o estoma”, os entrevistados ao relatarem sobre sua convivência com o estoma, manifestaram sentimentos de tristeza, depressão, rejeição, medo e vergonha, por estarem passando por esta situação. Ficando bastante notável nos depoimentos abaixo:[...] porque uma coisa que seu intestino fica reto fica direto, você pensa que a bolsa está vazia, tá cheia, não é uma vida normal... Você mudar a posição das suas fezes é um sofrimento [...] (D1).[...] Quando fizeram essa colostomia em mim, mulher, eu entrei numa depressão, isso começou lá no hospital, no tem? Eu só andava chorando, mulher, não tava sabendo me mexer, me virar, eu ficava com vergonha, ficava com aquele constrangimento [...] (D4).[...] Eu fiquei muito deprimido. Fiquei com dificuldade pra sair porque a bolsa não tem limite, não tem controle, esse é o problema, se tivesse controle era melhor. Aí evito sair [...] (D7).Após a realização da cirurgia surge uma aflição extrema e depressão, resultado do confronto com aquilo que existe efetivamente que é o estoma, de uma real função privada que agora está em evidência com necessidade de realizar profundos reajustes nos seus planos existenciais (6).Os relatos acima demonstram que o preparo do estomizado, família e cuidador devem ser iniciados ainda no pré-operatório mediato, para que os profissionais de saúde, sobretudo os enfermeiros, desenvolvam um trabalho de acolhimento satisfatório atendendo as necessidades básicas do ser humano, transmitindo um conhecimento amplo e sem dúvidas para o seu autocuidado, permitindo-os adquirir hábitos adequados à sua nova condição de vida.Dentro da categoria Convivendo com o Estoma, identificou-se uma convergência de pensamento nas falas, que uma das dificuldades de convivência está na adaptação, que acaba ocorrendo ao longo do tempo em virtude da necessidade, surgindo assim uma subcategoria conforme apresentada a seguir.Relativo à subcategoria “Adaptação por necessidade” os participantes da entrevista deixam clara a dificuldade do retorno às atividades de lazer, bem como às atividades de convívio social, principalmente no início, demonstrando superação, ou melhor, adaptação com o passar do tempo. Como podemos observar nos depoimentos a seguir:[...] Você muda os hábitos, porque não pode mudar a rotina, porque, você nunca acostuma, acredito que se você passar dez anos, vinte anos, você nunca se acostuma, você leva, você vai. [...] (D1).[...] Eu convivo assim porque é o jeito, mas se pudesse voltava o normal, era a coisa que eu mais queria na vida [...] (D2, chorando).[...] Era a única opção. Eu me acostumei a andar com ela, mais eu não saio para parte nenhuma porque eu tinha vergonha de tá com ela e ela estourar uma hora, né. [...] (D6).Com o passar do tempo, a maioria das pessoas adapta-se melhor a condição de ser estomizado, havendo melhor tolerância dos limites atribuídos pela presença do estoma. Essa situação leva a uma reformulação de seus objetivos futuros trazendo um estado relativo de bem-estar. Porém, nem todos conseguem uma adaptação a esta nova situação e se recusam ajustar-se a uma nova rotina de vida, podendo gerar sérios problemas de adaptação (10).É necessária a busca da reinserção social e reabilitação dos estomizados, para que eles possam combater seus medos, vergonhas, retomando as suas condições de vida na possibilidade de promover uma melhor adaptação dessas pessoas as suas novas condições, podendo auxiliá-las a encontrarem uma nova forma de se adaptar a doença e a conviver com o estoma.Em análise das falas dos depoentes, os pesquisadores, perceberam que ter saúde é um fator primordial na condição de vida. E que, a confecção de um estoma por mais que seja complexo, permitiu a estes pacientes uma oportunidade de vida e que, a informação é um fator de relevância para os pacientes com estomia, pois quando se conhece o procedimento e as dificuldades que possam surgir, o paciente e sua família adquirem confiança e tranquilidade para enfrentar todo esse processo.Respeitante à terceira categoria “Autocuidado com a estomia” os participantes da pesquisa ao relatarem os cuidados realizados com o estoma, citaram práticas relacionadas às técnicas de higienização, proteção da pele ao redor do estoma e da troca da bolsa de estomia. Percebeuse que os pacientes estomizados tinham certo conhecimento sobre o autocuidado em relação ao estoma. As falas a seguir evidenciam cuidados em relação à higiene.[...] Eu cuido do meu estoma. É, tem que aprender porque não dá pra ficar butando (?), ninguém de casa vai querer ficar trocando sua bolsa, mas eu mesmo que troco minha colostomia. Você mesmo é que tem que se cuidar [...] (D1).[...] Ah o meu cuidado diário é assim, oh, banho umas duas vezes, no tem. Aí começa a encher, fica volumoso, vou no quintal e tiro o clip e lavo direitinho e as vezes é só para tirar aquele ar aí se a bolsa tá limpa, nem precisa lavar, e tenho uma dieta cuidadosa, pra mim não exagerar nas refeições porque muitas vezes me causa diarréia, não tem. [...] (D4).Os cuidados com a higienização e a troca de bolsa das estomias são muito importantes para garantir a integridade da pele e prevenir infecção, e para que essas medidas sejam realizadas da maneira adequada, é preciso que os pacientes estomizados sejam orientados pelos profissionais de enfermagem, para que eles possam desenvolver o autocuidado (11).Chilida et al. 2007, realizou um estudo no serviço de referência a pessoa com estoma de uma cidade do interior do Estado de São Paulo pela Universidade Paulista - UNIP, intitulada “Complicações mais frequentes em pacientes atendidos em um pólo de atendimento ao paciente com estoma no interior do estado de São Paulo”, demonstrando também que, o enfermeiro precisa adquirir desenvolturas práticas e experiências no cuidado. Cuidar e orientar é compartilhar informação, troca mútua de instruir e aprender, afinidade interpessoal respeitável entre enfermeiro e paciente. Com conhecimento, o enfermeiro fica mais seguro no cuidado que assiste, contribuindo para o tratamento eficaz e reabilitação do paciente com estoma valorizando ainda mais seu trabalho (12).É importante também ensinar o paciente e o prestador de assistência sobre as necessidades de cuidados pessoais de rotina: esvaziamento da bolsa, limpeza da pele e do estoma, troca da bolsa até que seja independente, instruir o paciente sobre seu novo estilo de vida em relação à dieta evitando alimentos que provoquem gases e odor, aquisição de suprimentos de estoma, banho em água corrente utilizando sabão neutro de uso individual, utilizando toalha macia e limpa para enxugar a região do estoma, uso de roupas leves e confortáveis, motivar o paciente a exteriorizar seus sentimentos em relação à estomia, mudanças na imagem corporal e na sexualidade (13).Acredita-se que a compreensão das pessoas estomizadas a partir de relato de suas vivências, possa proporcionar aos profissionais de enfermagem uma perspectiva ampliada para orientar a elaboração de um cuidado apropriado, atribuindo assim, enfoque especial à higiene do estoma e periestoma, bem como o manuseio, troca e manutenção do equipamento coletor, sempre com o olhar para o autocuidado. A aprendizagem das atividades é essencial a esses cuidados, colabora para reforçar a autoestima e a segurança das pessoas com estomas e suas famílias.Quanto à quarta categoria “Rede de apoio ao estomizado” percebeu-se através dos depoimentos dos sujeitos, que o apoio recebido oriundos dos grupos e convivência e principalmente da família, tem ajudado o estomizado no processo de adaptação juntamente com as orientações e os cuidados prestados pelos profissionais de saúde. Vejamos os depoimentos:[...] A família ajuda muito também, porque se não tiver uma boa ajuda da família, você nunca será um colostomizado perfeito. Graças a Deus na minha casa ninguém tem nojo de mim, ninguém me joga pra colá [...] (D1).[...] Quem cuida é a minha filha, ela que cuida de tudo isso, limpa, troca, né? É isso aí, usa gaze, usa soro, água filtrada, fervo e limpo na aparadeira e vou limpando, aí depois eu coloco soro dentro e assim que faço me ensinaram assim [...] (D8).[...] É, me ajudou muito, psicólogo, médico. Também a enfermeira que me acompanhou, porque quando me operei, fiquei tendo toda assistência direto da enfermeira chefe [...] (D10).Na pesquisa realizada pela Universidade de Taubaté no município do Vale do Paraíba na cidade de São José dos Campos, “Estoma e vida laborativa” demonstra que, os indivíduos portadores de estomias que participam de grupo de apoio, enfrentam melhor sua realidade e a nova situação de vida, devido ao compartilhamento de emoções e experiências, boas ou ruins. O grupo geralmente proporciona uma visão positiva do estoma, visto que sem a realização deste não poderiam estar vivos e perto de seus entes queridos (14).Estes depoimentos confirmam a importância do apoio familiar, bem como do encontro, da troca de experiências e vivências entre os estomizados, na reformulação da confiança em si mesmo e no enfrentamento dos problemas cotidianos, relacionados ao autocuidado para exercer as atividades normais do dia-a-dia.Ao final desta discussão, pode-se enfatizar que a falta de conhecimento, por parte dos entrevistados, descrita na categoria “A estomia na percepção dos estomizados”, sobre os aspectos que permeiam a estomia, contribui sobremaneira para a exacerbação dos sentimentos relatados na categoria “Convivendo com o estoma”, repercutindo de forma negativa na adaptação dos pacientes ao novo estilo de vida, bem como na realização do autocuidado.Dessa forma, a rede de apoio a esses pacientes surge como uma estratégia de alicerce às dificuldades encontradas pelos sujeitos do estudo minimizando os problemas relacionados à estomia. Diante desta percepção, questiona-se porque não sugerir um contato prévio, quando possível, dos futuros estomizados e ou cuidadores, com pessoas que já vivenciam esta condição? Tal experiência poderia acrescentar conhecimentos, saberes e possivelmente reduzir os questionamentos, medos e inseguranças do paciente a ser estomizado, favorecendo uma melhor aceitação do novo estilo de vida.ConclusãoA partir das vivências dos pacientes estomizados, nesse estudo, percebeu-se que a maioria dos entrevistados tinha conhecimento restrito e elementar sobre a estomia, o autocuidado e suas necessidades estavam geralmente relacionados às mudanças ocorridas no modo de vida, pela não aceitação do estoma e pelo estigma causado por ele.Sabe-se que o conhecimento tem grande abrangência em muitos aspectos da subjetividade a compreender inteligências e significados que sofrem extensão também da cultura. E assim, cogita-se a necessidade de implementação de mudanças, visando a adquirir competências na concepção dos profissionais da equipe de saúde e, diante dessas condições, seria necessário que as organizações hospitalares capacitassem mais, quem primeiro vai orientar e cuidar, com olhar humanizado – o enfermeiro.Dentre as orientações prestadas pelos membros da equipe multidisciplinar, a enfermagem tem papel preponderante, visto que está mais diretamente ligada a esta clientela. Portanto, sua participação é fundamental no processo de adaptação do estomizado, pois se o paciente receber orientação adequada e contínua, certamente irá sentir que está sendo bem cuidado e observado, logo, aceitará melhor o tratamento, se mostrará mais seguro e interessado pela preservação do seu corpo e será mais colaborativo para o autocuidado.Propõe-se assim, o desenvolvimento de práticas educativas eficazes, principalmente no período perioperatório, pautadas nos aspectos relacionados às necessidades humanas básicas e autocuidado, visando à promoção da saúde do paciente estomizado e prevenção de futuras complicações. Tal tecnologia educativa, seria utilizada como estratégia pelo enfermeiro no apoio às adaptações/adequações aos novos hábitos de vida, contemplando, uma assistência sistematizada, holística e de qualidade.Considerações finaisFicou evidente durante o estudo que, para os estomizados, o estoma intestinal carrega consigo uma série de significados que transformam radicalmente a realidade em que vivem. As mudanças impostas por essa nova condição são pouco aceitas no início e gradualmente vão se modificando e integralizando-se ao seu dia-a-dia.Para os estomizados entrevistados, a questão do corpo modificado parece ter uma relevância ainda maior na adaptação ao estoma intestinal. Nesse caso, não é apenas uma função fisiológica que está alterada, mas sim, a relação com sua autoimagem e autoestima; elementos básicos para se manterem mentalmente sadios.Á distorção quanto à auto-análise corpórea faz com que muitas delas se distanciem do convívio social, permaneçam isoladas do mundo e carcerárias de si mesmas, na tentativa de apresentar-se minimamente às situações constrangedoras e passíveis do julgamento coletivo.Espera-se que o estudo contribua para os saberes e a compreensão dos acadêmicos e profissionais de enfermagem sobre a promoção de estratégias que permitam acessar os conhecimentos e práticas de pessoas estomizados sobre a manutenção da estomia intestinal ou urinária. Assim, a presente proposta se reveste da compreensão do cliente como potencialmente ativo inserido sócio culturalmente em uma realidade que lhe é singular, cujas experiências se acumulam, se refazem e se modificam ao longo de sua trajetória existencial.

Downloads

Download data is not yet available.

References

Cascais AF, Martini JG, Almeida PJS. O impacto da ostomia no processo de viver humano. Texto Contexto Enferm. 2007;16(1):163-7.

Bound J. Ressecção intestinal com ostomia. Enfermagem Médico-cirúrgico. 3ª ed. Rio de Janeiro: Reichmann& Affonso; 2004. p. 830

FEGEST Federação Gaúcha de Estomizados. Colostomias 100perguntas a respeito-parte 1 [Internet]. 2009 [acesso em 08 set. 2012]. Disponível em: http://w w w . f e g e s t . o r g . d o w n l o a u d s /100_perguntas_sobre_colostomia.pdf

Nascimento CMS, Trindade GL, Luz MH, Santiago RF. Vivência do paciente estomizado:uma contribuição para a assistência de enfermagem. TextoContextoEnferm. 2011;20(3):557-64.

INCA. A Relevância do câncer colorretal. Bepa [Internet]. 2009 [acesso em 18 set. 2012];6(68). Disponível em: http:// www.cve.saude.sp.gov.br/agencia/bepa6B_gais.html.

Anhaia AS, Vieira JCM, Vieira AMLM. Amulher e o estoma: implicações na vida diária. Rev Estima. 2007;5(4):23.

Oliveira CAGS, Rodrigues JC, Silva KN.Identificação do nível de conhecimento de pacientes comcolostomias para a prevenção de possíveis complicações. RevEstima. 2007;5(4):26-30.

MinayoMCS. O desafio do conhecimento: pesquisaqualitativa em saúde. 12ª ed. São Paulo:Hucitec; 2010.

Cesaretti IUR. Cuidando da pessoa com estoma no pósoperatório tardio. RevEstima. 2008;6(1):27-8.

Marcio MS et al. Grupo de pessoas com estomias:necessário? Rev Estima. 2006;4(4):26.

Timy BK, Smith NE. Enfermagem médico-cirúrgica.São Paulo: Manole; 2005.

Chilida MSP et al. Complicações mais frequentes empacientes atendidos em um pólo de atendimento ao pacientecom estoma no interior do estado de São Paulo. Rev Estima. 2007;5(4):32-6.

Brunner&Suddarht. Distúrbios gastrintestinais.Prática de Enfermagem. 7ª ed. Rio de Janeiro: GuanabaraKoogan, 2006. p. 575

Souza MP et al. Estoma e vida laborativa. Rev Estima. 2007;5(1):14.

Published

2016-03-23

How to Cite

1.
Castro AB dos S, Benício CDAV, Carvalho D da C, Monte NF, Luz MHBA. Artigo Original 2 - Conhecimentos e Práticas de Pessoas Estomizadas: Um Subsídio para o Cuidar em Enfermagem. ESTIMA [Internet]. 2016Mar.23 [cited 2021Jan.28];12(4). Available from: https://www.revistaestima.com.br/estima/article/view/98

Issue

Section

Article

Most read articles by the same author(s)

1 2 > >>