Artigo Original 1

Maressa Priscila Daga de Souza, Viviane Resende Santos, Bárbara Sinzato Vilela, Maria Angela Boccara de Paula


Estoma e Vida Laborativa Ostomy and Labor Life

Resumo
O trabalho é toda atividade física e cognitiva realizada conscientemente pelo homem, com a finalidade de produzir riqueza, servindo como base às relações sociais, funciona como elo social do convívio extra-familiar. Em grupo, possibilita relações de amizade, companheirismo, e até mesmo de competição, que unem os indivíduos e os mantêm em constante participação social. Revigora o homem e proporciona uma descarga de energia psíquica, eliminando suas tensões. Alguns agravos à saúde podem limitar temporariamente o indivíduo à vida laborativa. Dentre estes, os estomas, que geram alterações e dificuldades em diversos aspectos da vida, sendo a vida laborativa uma importante área afetada. O objetivo deste estudo foi identificar as dificuldades que levam ao não retorno à vida laborativa após a realização do estoma das pessoas com estomas, cadastradas no Programa de Assistência ao Estomizado no município de São José dos Campos, por meio de entrevistas, sob o enfoque qualitativo à luz da teoria das Representações Sociais e compondo o discurso do Sujeito Coletivo (DSC). Os temas Centrais resultantes apontam as dificuldades, sentimentos e percepções da pessoa estomizada a respeito da vida laborativa, mostrando que existe a necessidade de capacitar profissionais de saúde para assistir a pessoa estomizada, a organização de serviços e Programas de assistência que trabalhem com esta clientela desde o pré-operatório, a necessidade de esclarecimento da população em geral sobre o que é um estoma e suas reais implicações para a vida laborativa.
Palavras Chaves: Trabalho. Estomia.
Abstract
The work is al physical activity and cognitive carried through conscientiously for the man with the purpose to produce wealth, serving as base to the social relations, it functions as social link of the extra-familiar conviviality. In group, it makes possible friendship relations, felowship, and even though of competition, that the individuals join and they keep them in constant social participation. It revigorates the man and it provides a discharge of psychic energy eliminating its tensions. Some health disorders can temporarily limit the individual to the work life. Amongst these the ostomy, that generaly produce alterations and difficulties in diverse aspects of the life, is being the work life an important afected area. The Objective of this study was to identify the difficulties to the return to the work life after the accomplishment of an ostomy of the people registered in the Assistance Program in the city of São José dos Campos, by means of interviews, under the qualitative approach to the light of the theory of the Social Representations and composing the Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). The subjects resultant Central Ideas that point the dificulties, feelings and perceptions of people with an ostomy regarding the work life, showing the necessity to make able health professionals to attend these people, the organization of services and programs of assistance that work with them since the pre operate time, the necessity of clarification of the population in general on what is an ostomy and its real implications for the work life.
Key ords: Work. Ostomy.
Introdução
O trabalho é toda atividade física e cognitiva realizada conscientemente pelo homem, com a finalidade de produzir riqueza, servindo como base às relações sociais1,2,3. Ele funciona como elo social do convívio extra-familiar3. Em grupo, possibilita relações de amizade, companheirismo, e até mesmo Artigo Original de competição, que unem os indivíduos e os mantêm em constante participação social.
Além disso, o trabalho revigora o homem e proporciona uma descarga de energia psíquica, eliminando suas tensões1.
Alguns agravos à saúde podem limitar temporariamente o indivíduo à vida laborativa4. Dentre esses agravos, podemos citar os estomas, que freqüentemente advém de traumas, cânceres e outras patologias. O câncer do intestino atingiu, em 1999, em todo Brasil, taxas de 4,4 indivíduos por 100.000 habitantes, sendo que, o Estado da São Paulo, está bem acima dos outros estados brasileiros: 10,5 indivíduos por 100.000 habitantes5.
A realização do estoma tem como função principal salvar vidas e pode fazer parte do tratamento do câncer intestinal. No entanto, pode gerar diversas dificuldades aos indivíduos submetidos à mesma, tais como: mudanças corporais e sociais, alimentares, vestuário, desempenho de papéis e sexualidade. Todas essas alterações podem causar transtornos psicológicos levando à ansiedade, angústia, depressão, medo de rejeição e vergonha, acarretando assim, um isolamento social do indivíduo6,7.
As transformações físicas são preponderantes, uma vez que produzem nos portadores de estoma um sentimento negativo de temor quanto ao uso de uma bolsa coletora por estar inserido em uma sociedade que lida com conceitos estéticos, cores e fragrâncias7. A alteração da auto-imagem leva a uma sensação de mutilação e de rejeição de si mesmo, essa imagem refere-se aos sentimentos envolvidos em nossa percepção e ao meio que nos circunda8. Na prática diária de enfermagem pudemos evidenciar que o estoma afeta diretamente a auto-imagem dos indivíduos, levando-os muitas vezes, a sentirem-se inferiores, ou até mesmo incapacitados para realização de diversas atividades cotidianas. Com medo de que sua bolsa seja notada, por vezes, preferem isolar-se do convívio social, escolhendo a exclusão ao enfrentamento da nova realidade a que estão sujeitos.
Uma das causas de angústia para esses indivíduos e suas famílias é geralmente a ausência de planejamento prévio da realização do estoma6. Muitos não recebem qualquer tipo de orientação, e quando recebem, é superficial, aumentando assim a tensão em relação à doença9,10.
Tão importante quanto isso é o auxílio e o estímulo da realização de suas atividades diárias, visando o desenvolvimento da independência e a segurança para o autocuidado. É imprescindível o envolvimento da família na assistência durante a internação, pois é ela que assume a continuidade do cuidado no período de transição hospital/ moradia6,7,8,11.
Segundo a Declaração Internacional dos Direitos dos Ostomizados12, o paciente portador de estoma, deve:
"Receber apoio e informações para benefício da família, dos cuidados pessoais e dos amigos a fim de aumentar o entendimento sobre as condições e adaptações necessárias para alcançar um padrão de vida satisfatório para viver com a ostomia".
No planejamento para a alta hospitalar é de suma importância que o paciente e sua família sejam encaminhados para um grupo de apoio, pois este serve como anfitrião ao portador de estomia no seu retorno à sociedade. Estes grupos proporcionam o contanto com outros indivíduos que sofreram a realização da estomia, minimizando a tendência ao isolamento social, auxiliando no enfrentamento da realidade e facilitando o retorno às atividades diárias.
Baseados em nossas atividades profissionais diárias, percebemos que os indivíduos portadores de estomia que participam de grupo de apoio enfrentam melhor sua realidade e a nova situação de vida, devido ao compartilhamento de emoções e experiências, boas ou más. O grupo geralmente proporciona uma visão positiva do estoma, visto que sem a realização deste não poderiam estar vivos e perto de seus entes queridos.
A sociedade atual não credita ao portador de deficiência sua capacidade produtiva, afastando-o compulsoriamente do mercado de trabalho. Esse afastamento torna-o vulnerável, infeliz e com sensação de invalidez, podendo motivar ou reativar tendências de autodestruição6. Muitas vezes, o meio social considera o indivíduo que possui um estoma deficiente e incapaz de exercer as atividades a que estava acostumado, principalmente as relacionadas à vida laborativa, fazendo-o aceitar este estereótipo imposto. Desta forma, ele pode abandonar as atividades laborativas, procurando a aposentadoria precoce.
A reinserção social é imprescindível para que o portador de estomia aceite melhor as mudanças que ocorreram em seu corpo e, conseqüentemente, em sua mente. O retorno à vida laborativa pode ser uma forma de auxiliar e antecipar essa reinserção, ajudando o indivíduo a retomar seus afazeres e atividades cotidianas2.
É importante que os profissionais da área de saúde entendam e conheçam quais são as dificuldades encontradas pelos indivíduos estomizados para o seu retorno às atividades laborativas, podendo prestar, assim, uma melhor assistência no processo de reabilitação.
Assim sendo, este estudo teve como objetivo identificar dificuldades que levam ao não retorno à vida laborativa após a realização da cirurgia pelos portadores de estomas cadastrados a um Centro de Reabilitação de Estomizados no município de São José dos Campos-SP.
Métodos
Neste estudo, optou-se pelo enfoque metodológico qualitativo, à luz da teoria das Representações Sociais, expresso pelo Discurso do Sujeito Coletivo.
A metodologia qualitativa expressa os diversos significados das relações, enfatizando as diferentes crenças, percepções e valores individuais que se atribui à consciência coletiva13.
As representações coletivas, por terem características de fato sociais, exercem no indivíduo uma coerção exterior. A consciência coletiva representa um conjunto de crenças e sentimentos comuns ao grupo, referindo-se ao modo pelo qual esses se vêem e se definem14. A teoria das representações sociais está embasada na produção de significados em um coletivo que interpreta os eventos do mundo vivido14.
Este estudo pretendeu conhecer o pensamento coletivo de pessoas estomizadas, buscando identificar as dificuldades que podem contribuir para o não retorno à vida laborativa após a presença do estoma, visto que busca reconstruir uma representação social sobre um fenômeno, utilizando-se de trechos de discursos individuais15, obtidos por meio de entrevistas individuais.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade de Taubaté. As entrevistas semi-estruturadas individualizadas foram realizadas junto a 5 pessoas estomizadas, cadastradas no Centro de Reabilitação Centro-Norte de Ostomizados do Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, no mês de outubro de 2004, com idade entre 39 a 67 anos e que se aposentaram ou estavam afastados de suas atividades profissionais após realização do estoma, em decorrência do mesmo.
A fim de garantir o anonimato das pessoas entrevistadas, trocamos seus nomes por pseudônimos de super-heróis fictícios.
Após a transcrição das entrevistas, as respostas foram lidas por diversas vezes e retiradas dessas as expressões chaves dos discursos que deram origem as idéias centrais e as ancoragens de cada expressão, que por sua vez foram agrupados e, finalmente, transformou-se no Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), de acordo com os grandes temas que surgiram.
Resultados e Discussão
Participaram do estudo cinco pessoas estomizadas afastadas de suas atividades profissionais, todos eram colostomizados, sendo três do sexo masculino e dois do sexo feminino. Quatro estavam aposentados e um afastado de suas atividades laborativas.
Dos discursos transcritos surgiram as expressões chaves que deram origem aos principais grupamentos de idéias, que por sua vez originaram as Unidades Temáticas resultantes que seguem abaixo.
DSC - No começo é difícil porque a colostomia ela não tem controle, se dá uma dor de barriga de repente, eu não consigo controlar..é que nem criança, se ela tá com vontade de fazer xixi, faz. Com o passar do tempo, aí melhora e fica estabelecida.
Unidade Temática I - O estoma implica em descontrole intestinal
Após a cirurgia, a pessoa estomizada depara- se com modificações fisiológicas e precisa adaptar- se a sua nova condição. Essa adaptação gira em torno da mudança fisiológica durante a eliminação das fezes e das implicações advindas desta nova realidade, como odor e uso obrigatório da bolsa de colostomia17.
Unidade Temática II - O trabalho e sua importância social
DSC -Na época a gente acha que ficou inválido pra tudo, demora pra aceitar porque tava acostumado a trabalhar. No início sentia falta, eu tentei voltar ao trabalho. Tava com encaminhamento médico para me afastar definitivamente, eu rodei por aí estudando algum serviço, mas tem um monte de obstáculos que me atrapalha. Hoje estou cansado, já trabalhei tanto. Agora eu só trabalho em casa,..tem muita coisa pra fazer, eles estão sempre me ocupando de alguma coisa que é pra mim não poder ficar totalmente isolado, me sentindo inválido. Eu não me sinto uma pessoa inútil. A única coisa que me incomoda é que eu não tô podendo trabalhar,..pra voltar pra sociedade, pra trabalhar de novo não dá,..eu sei que eu vou me chatear, vou me magoar.
O sentimento de invalidez pode aparecer logo após a realização do estoma, e este geralmente é acompanhado de inúmeros outros, como a sensação de mutilação, castração, fraqueza, desespero, desgosto e o medo de acidentes com o estoma17.
Estes aspectos são extremamente relevantes quando se pensa na assistência e reabilitação da pessoa estomizada, visto que pode ser trabalhado desde a fase pré-operatória, o que pode contribuir para que a pessoa consiga superá-los de forma efetiva.
Uma vez que a mutilação física é uma imposição permanente, o indivíduo vê-se impelido a adaptar-se18, para tal é necessário que a pessoa conheça suas possibilidades, potenciais e seus direitos. Nesta Unidade Temática é possível perceber a inter-relação entre a presença do estoma, trabalho e reinserção na sociedade. O desejo de retornar ao trabalho está presente, porém, quando as pessoas estomizadas se deparam com obstáculos, preferem distanciar-se das pessoas na tentativa de evitar a rejeição e o constrangimento17.
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Unidade Temática III - A influência dos dispositivos no convívio social
DSC - Antigamente, eu não recebia essas bolsas de colostomia, eu tinha que comprar, era muito caro e eu tava vendo que não ia ter condições de comprar. Era um material que não era muito bom, eu tinha medo que descolasse porque a cola naquela bolsa solta quando você começa a transpirar. Tinha medo que funcionasse o intestino perto dos outros. Aí vinha o bendito barulho, começa a subir aquele cheiro desagradável e as pessoas que estavam perto de mim iam sentir o mau cheiro..o problema do odor não tem como controlar. Eu me envergonhava daquilo, me incomodava, me incomodava que eu não tava mais saindo de casa..Parei a andar de ônibus e comecei a andar a pé. A bolsa que a gente usava, não tem condição de voltar a trabalhar. Depois eu descobri e comecei pegar a bolsa. Hoje eu uso uma bolsa excelente, ela tem um carvãozinho que é pra não soltar o odor, eu tampo o furinho, ela vai enchendo de gazes, então procuro um lugar bem isolado, fora do movimento, solto a bolsinha, ela murcha, eu tampo e posso voltar para o meio da sociedade de novo. Fui começando a sair de casa, agora eu vou em qualquer lugar, poderia ficar no meio das pessoas, ninguém nota. Hoje eu tô satisfeito..tranqüilo, ando, brinco, até o que eu não podia fazer eu faço. Eu entro na água, eu sei que a bolsa não descola..passeio muito, entrei na academia, faço hidroginástica, vou pescar, fico mexendo com os bichinhos na chacrinha, isso me distrai a cabeça. Vou vivendo assim, antigamente não fazer isso.
Apesar da preocupação dos indivíduos estomizados com o uso da bolsa e com os incômodos decorrentes deste, como eliminação de gazes, vazamento e odor das fezes, a evolução tecnológica dos dispositivos é uma realidade que vêm contribuindo para readaptação da pessoa estomizada ao convívio social. Estes novos dispositivos transmitem segurança física e psicológica, gerando tranqüilidade e confiança no cotidiano destes indivíduos.
A qualidade dos dispositivos está contribuindo muito para a reabilitação da pessoa estomizada, seu convívio social e laborativo, assim, é necessário que pessoas estomizadas, profissionais de saúde e indústria estejam sempre atentos e mantenham contato constante para cada vez mais poderem utilizar e produzir materiais de qualidade, que contribuam significativamente para a qualidade de vida destas pessoas.
Unidade Temática IV - Mudança alimentar e o convívio social
DSC - O principal é conversar sobre alimentação, eles orientaram o que a gente pode comer, uma relação de comida que não junta gazes, que não mexe com o intestino porque dependendo do que você come, ninguém fica perto, você não consegue segurar os gazes. Se eu for ficar em casa, como de tudo, se eu tenho que sair, procuro um dia antes não me alimentar muito. Numa fábrica é complicado, ninguém vai servir aquilo que você precisa comer. Graças a Deus eu fui aos poucos me adaptando à alimentação. Hoje eu levo uma vida normal, como de tudo, parece que sou mais feliz do que antes de eu trabalhar. Eu ando pra todo lado, não posso queixar.
Uma das principais adaptações que o indivíduo estomizado enfrenta está relacionada com sua alimentação, visto que influem diretamente no funcionamento do intestino, sendo muitas vezes necessário adequar hábitos alimentares, especialmente ao relacionar-se com pessoas que não fazem parte de seu convívio familiar. O temor da rejeição pelo meio social em que vive a pessoa estomizada leva-a a autoproibições.
No intuito de ocultar o estoma, ao sair de casa, ele muda seu estilo de vestuário, e abstém-se de alguns alimentos, receando tornar pública sua condição de estomizado, contribuindo dessa forma para o seu isolamento social19.
Uma de suas principais preocupações está relacionada com os odores produzidos pela digestão dos alimentos, levando-os a alguns tabus alimentares, porém, é importante que o profissional de saúde esclareça dúvidas a respeito de sua alimentação, garantindo assim manutenção ou recuperação de seu estado nutricional20, oriente as possibilidades de adequação alimentar e, sempre que necessário, o profissional específico da área de nutrição deve formular cardápios e orientações individualizadas.
Verifica-se, então, que o processo de educação alimentar das pessoas estomizadas é de fundamental importância, visando uma dieta equilibrada que os reintegrem na família e na sociedade. Todas as informações concernentes à alimentação devem ser fornecidas desde o período intra-hospitalar até o nível ambulatorial20.
UNIDADE TEMÁTICA V - O tratamento e as "seqüelas" impedem retorno ao trabalho
DSC -O médico disse que eu ia ter que ficar afastado um bom tempo porque vem o tratamento..radioterapia, quimioterapia - é terrível,você vomita, tem dor de cabeça, mal- estar e aquilo fica na gente. Fiquei com bexiga neurogênica, eu tenho que urinar através de sondas de alívio e é fácil pegar infecção. Qualquer tipo de esforço eu sinto dor nos pontos da operação, procuro fazer o menos esforço possível. Gostava muito de andar a cavalo, de bicicleta, ando só para não perder o gosto, mas no dia seguinte eu estou com dor. Por isso não posso voltar, tinha que ficar afastado. Fábrica, você não consegue em lugar nenhum, eu teria que trabalhar como autônomo e não tem um serviço leve de autônomo. O jeito é eu ficar fazendo essas coisas que eu faço em casa.
As seqüelas, os tratamentos e as complicações decorrentes da cirurgia acabam por levar a sintomas como vômitos, cefaléia, dores, mal estar, infecções, influenciando no não retorno da pessoa à vida laborativa.
Várias complicações podem ocorrer após a realização do estoma, e estas, muitas vezes, comprometem o envolvimento da pessoa estomizada no processo de reabilitação19.
Dados estatísticos de Porto Alegre demonstram que 17% (1.181 pessoas) das ocorrências de aposentadoria em idade ativa são decorrentes da convalescença após cirurgia. Dentre essas cirurgias, 34% (401 pessoas) estão relacionadas ao aparelho digestivo4.
Assim, as complicações enfrentadas no pós- operatório de cirurgias gastrointestinais, dentre elas o estoma intestinal, afastam muitos indivíduos do trabalho, aposentando-os precocemente.
Unidade Temática VI - Influência dos profissionais de saúde ao não retorno ao trabalho
DSC - Quando eu fui operar eu não sabia o que era, sai do hospital e não sabe por que tem que usar, aonde vai, que tem pra pegar..a enfermeira não falou nada, o médico não falou nada, eles não orientam nada. Depois que eu saí do hospital falaram que eu tinha que usar, aí eu comprava. Ainda tem gente que não é orientada. No começo eu quis trabalhar, mas o médico disse que eu não devia, que eu não podia pegar peso, não podia me esforçar muito. Fiquei afastado pelo INPS, fazendo perícia até ter uma liberação. O médico deu o laudo final e falou que queria que eu aposentasse por invalidez, ele falou: Não posso te liberar pra trabalhar por causa da sua idade, podem mandar embora e você não arruma serviço em lugar nenhum você vai ser reprovado no exame médico por causa das sequelas. Aí fui me distanciando e parei mesmo.
As orientações da equipe de saúde na fase peri-operatória contribuem para que o indivíduo compreenda sua nova realidade, que envolve fatores ligados à doença, seu tratamento e possíveis seqüelas.
No entanto, observa-se que os esclarecimentos fornecidos pela equipe de saúde no pré-operatório e no momento da alta, ou não estão sendo realizados, ou quando o são, não são efetivos. Portanto, essa situação pode agravar a forma como as pessoas trabalham e enfrentam as dificuldades vivenciadas.
O planejamento da assistência deve ser realizado ao longo de todo período operatório, envolvendo a pessoa e a família, seguimento ambulatorial e as orientações para saúde, fornecidas pelos profissionais de saúde17.
O profissional de saúde, ao considerar a pessoa estomizada incapaz de realizar as atividades laborais, acaba influenciando para o seu não retorno ao trabalho, induzindo-o à aposentadoria por invalidez, geralmente precocemente. A qualidade do atendimento à pessoa estomizada pode ser melhorada por meio da capacitação dos profissionais de saúde8 e a inclusão de profissionais como psicólogos e assistentes sociais.
Unidade Temática VII - Comentários sobre o dispositivo incomodam a pessoa estomizada
DSC - o começo, eu operei e muita gente perguntava, eu não falava pra ninguém, ninguém sabia que eu usava era só minha família e eu.Procuro não comentar nada com ninguém, tocava no assunto, eu ficava chateado, me batia uma tristeza.. Dependendo da situação, trocar essa bolsa é desagradável. Num banheiro de fábrica, acho difícil você se limpar e vai virar uma briga danada. Conviver no meio do povo, eu vou ter que ter separação para uma coisa, separação para outra é melhor eu ficar aposentado, não trabalhar mais. Depois de tanto e tanto tempo, ninguém mais toca no assunto, muitos amigos até esquecem que eu uso isso, eu mesmo esqueço.
A percepção da bolsa por indivíduos fora do convívio familiar gera vergonha e tendência ao isolamento social da pessoa estomizada. A tendência de manter-se distanciado de outras pessoas é utilizada para evitar ou diminuir sentimentos de constrangimento e rejeição17.
ALVES18 verificou que indivíduos estomizados não falavam sobre sua estomia, tendendo a minimizar seus inconvenientes, o que vem ao encontro com o apresentado acima.
Unidade Temática VIII - Atividades de lazer facilitam a reinserção social da pessoa estomizada
DSC - Hoje eu tô ótimo, jogo futebol, pratico esporte, vou passear, vou pescar, entrei na academia, faço hidroginástica, vou ajudar as pessoas que têm o mesmo problema. Vou desabafar namorando, faço tudo que uma pessoa normal pode fazer, ando pra todo lado, não posso me queixar. Essas coisas preenchem meu espaço, me distrai a cabeça.
O lazer proporciona ao indivíduo distração e reinserção social por meio de atividades prazerosas, ajudando-o a sentir-se normal como os que o cercam. A pessoa estomizada procura formas de retomar as atividades sociais, interpessoais, laborativas e de lazer, anteriores à cirurgia17 que contribuem significativamente para sua reabilitação e reinserção social.
A Unidade Temática IX - A importância do serviço de saúde e do grupo para a pessoa estomizada
DSC - No começo que tinha que comprar bolsa e não sabia aonde ia, depois apareceu aqui. Eu fui lá, me cadastrou, tirou todas as medidas, graças a Deus, a dona A.* apareceu na minha vida, como se fosse à primeira namorada, a primeira esposa, Deus me encaminhou para ela e estou satisfeito, hoje uso uma bolsa excelente. Todos que tem câncer se reúnem, a gente senta, conversa, fala o que tá passando, o que sente. Pessoas meio desanimadas saem lá de dentro com outro ar, é tão bonito.
O serviço de estomizados oferece não só orientações para o autocuidado, como também envolve o paciente e sua família visando a reabilitação, aquisição de dispositivos e seguimento ambulatorial, sendo de extrema importância para troca de experiências e enfrentamento da realidade.
Porém, alguns autores alertam que em muitos desses serviços, ocorre apenas a distribuição de dispositivos, descaracterizando sua proposta inicial17.
Os grupos propõem-se a trocar experiências, partilhar emoções e problemas comuns, bem como oferecer reeducação ao estomizado, ajudando-o a lidar com suas doenças, dúvidas e problemas. Proporcionam mudanças no comportamento dos estomizados, minimizando os sofrimentos causados pelos tratamentos e seus efeitos21.
Dentre os direitos do estomizado, observados na Declaração Internacional dos direitos dos Ostomizados, está o de ter acesso sobre a Associação Nacional de Estomizados e serviços por ela oferecidos, receber apoio e informação para benefício da família, de si próprio, dos amigos, aumentando assim o entendimento sobre as condições e adaptações necessárias para viver dentro de um padrão satisfatório. Esses itens podem ser facilitados por meio do grupo de estomizados21.
Unidade Temática X - Os empregadores vêem os estomizados como incapazes de retornar ao trabalho
DSC - firma quer uma pessoa 100% saudável e eu não esto,u porque tinha feito a cirurgia e tava estomizado, tenho seqüelas, o meu chefe ele não aceita de maneira alguma o odor. Se eu voltar a trabalhar me manda embora. Fazer exame médico na situação em que eu me encontro, nenhuma fábrica vai me pegar, já tenho uma certa idade, então aí fica mais complicado. Eu quero trabalhar, eu quero fazer alguma coisa, mas eu sei que lá eu não posso, por esse motivo eu desanimei porque depois eu ficava sem aposentadoria e sem emprego. Se eu soubesse que eu ia voltar a trabalhar e não me mandariam embora, eu ia voltar com tanto prazer.
O receio de ser demitido, ou mesmo de ser rejeitado, no ambiente em que desenvolvia sua atividade laborativa leva o indivíduo a evitar o retorno frente à primeira dificuldade encontrada.
A pessoa estomizada sente-se limitada ou com perda de capacidade para o trabalho, sentindo-se inútil para a sociedade, porém, no DSC acima nota-se que existe o desejo para retornar a vida laborativa, que se transforma em desanimo quando encontram resistências no ambiente de trabalho17, sugerindo que é urgente que movimentos sociais sejam criados para divulgar a situação das pessoas estomizadas, assim como estudos com este foco de atenção, objetivando conhecer a real situação das pessoas estomizadas no que tange a atividade laborativa, e com isso, profissionais de saúde e sociedade possam buscar espaços e alternativas para a pessoa estomizada no mercado de trabalho.
Considerações Finais
O DSC mostra que existem diversas dificuldades para o indivíduo estomizado voltar ao convívio social e laborativo após a realização da cirurgia. Ele não sabe muitas vezes como conviver com essa mudança física. Alimentação, sexualidade, eliminação e controle das eliminações fecais, assim como lidar com os amigos, a família e o emprego, são perguntas que geralmente leva sem resposta quando da alta hospitalar. Essas dúvidas podem gerar problemas, que o fazem sentir-se diferente dos outros e excluído do seu meio.
Esses problemas podem ser minimizados com orientações e informações específicas, fornecidas pelos profissionais de saúde, sendo necessária capacitação constante desses, para que possam realizar de maneira adequada e satisfatória essa importante tarefa, que poderá ter reflexos positivos, não apenas para o auxílio ao retorno à vida laborativa, como no esclarecendo dúvidas, mitos, medos que tanto podem influenciar em seu convívio social, mudando assim seu modo de pensar, agir, sentir o mundo e a si mesmo.



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