Cateterismo Vesical Intermitente: Análise Epidemiológica

Miranete B. Silva, Laciana de Fátima Teixeira de Oliveira, Marly Leitão Ferreira, Leila C. Rosa dos Santos


Resumo
A prática do cateterismo vesical intermitente(CVI) com a utilização da técnica limpa vem se firmando como uma das melhores alternativas para pessoas com disfunções vesico esfincterianas de origem neurológica. Buscou-se neste estudo: caracterizar os clientes que utilizam CVI; identificar as causas das disfunções e verificar quem realiza o procedimento. Utilizou-se metodologia quantitativa retrospectiva. Os resultados mostraram que 61,3% da população estudada é do sexo masculino e 38,7% feminino. As faixas etárias compreendidas entre 21 e 40 anos, 41 e 60 anos e igual ou maior de 61 anos apresentaram percentuais iguais de 25%, enquanto os adolescentes entre 13 e 20 anos representaram 16% e as crianças entre 6 e 12 anos, 9%. As doenças de mielomeningocele (33%) e diabetes mellitus (14,7%). O procedimento é realizado pelo próprio cliente, em 81,3% dos casos e, em 18,7% pelo cuidador principal.
Palavras Chaves:Cateterismo urinário. Bexiga neurogênica
Intermittent Urinary Catheterization: Epidemiological Analysis
Abstract
The practice of intermittent catheterization (CVI) with the use of the clean technique has been confirming itself as one of the best alternatives for clients with nerve-related bladder dysfunction. The objective of this study is: to characterize the clients who use the CVI; to identify the causes of the dysfunctions; and to verify who performs the procedure. Retrospective Qualitative methodology was used. The results showed that 61,3% of the population studied is male and 38,7%, female. The age rangers of 21 to 40 years, 41 to 60 years and of 61 years and above presented equal percentages of 25%, while the adolescents between 13 and 20 years of age represented 16% and children between 6 and 12 years, 9%. The most frequent basic pathologies are: spinal cord injury (47%), myelomeningocele (33%) and diabetes mellitus (14,7%). The procedure is performed by the patient himself herself in 81,3% of the cases and in 18,7 by the main care taker.
Key words:Urinary Cauterization. Neurogenic Bladder.
 
Cateterismo Vesical Intermitente: Análise Epidemiológica
Resúmen
La práctica del cateterismo vesical intermitente(CVI) con el uso de la técnica limpia viene si pone firme como uma de las mejores alternativas para la gente com disfunciones vesicoesfincterianas de origen neurológica. En este studio se buscó: caracterizar a los clientes em que si usa el CVI, identificar las causas de las disfuciones y verificar quipen realiza el procedimento. Fue utilizada la metodologia cuantitativa retrospectiva. Los resultados han demonstrado que 61.3% de la población estudiada congregadas entre 21 y 40 años, 41 y 60 años e igual o más grande de 61 años han presentado el igual porcentaje del 25%, mientras que los adolescentes entre 13 y 20 años habían representado el 16% y los niños entre 6 y 12 años, el 19%. Las patologias más frecuentes de la base son: lesión de la medula espinal (47%), mielomeningocele (33%) y diabetes mellitus (14.7%) El procedimiento es llevada a través del próprio cliente en el 81.3% de los casos y el 18.7% por el cuidador principal.
Palabras clave:Cateterismo Urinário. Vejiga Neurogênica
Introdução
A finalidade de se introduzir um cateter na bexiga, através da uretra é a de promover o esvaziamento vesical efetivo.
A primeira referencia sobre a introdução de tubos de cobre e laca na uretra para promover a drenagem de urina da bexiga, data da civilização egípcia (3.000 a 1.440 AC)¹. Daí, para os cateteres utilizados atualmente, tem-se uma evolução que passou por diversas etapas até chegar em 1920, quando Frederick Foley desenhou um cateter de borracha que possuía um balão integrado, através de um lúmen separado, Uma vez preenchido com agua, esse balão permitia que o cateter ficasse retida na bexiga, sendo por isso conhecido como cateter de demora².
Um marco na historia do cateterismo uretral ocorreu a partir da Segunda uerra Mundial, quando Sir Ludwing Guttmann, ao cuidar de paraplégicos e estudas profundamente a bexiga neurogênica, também chamada de disfunção vesico-esfincteriana de origem neurológica, rompeu a tradição ortodoxa do esvaziamento vesical feito por cateter de demora, passando a utilizar a técnica do cateterismo vesical intermitente (CVI), que era realiza apenas por médicos e feita com rigor asseptico³.
Em 1972, Lapides4 pesquisou e constatou que o desenvolvimento de infecção urinaria na bexiga neurogênica era causado pela hiper distensão vesical ( que causa isquemia no muscula detrusor) e pela presença do volume urinário residual ( que propicia meio de cultura para a bactéria). Uma vez compreendidas essas duas variáveis coo as responsáveis pela referida infecção, o CVI pode ser feito no domicilio, pelo próprio paciente ou pelo seu cuidador, apenas utilizando-se de técnica limpa, visto que o importante é preservar a bexiga vazia.
Marvulo5 afirma que, na área referente ao cateterismo uretral, desde a década de 80 são encontradas publicações em forma de diretrizes que norteiam e fundamentam a pratica assistencial. Contudo, no Brasil, isso ainda é escasso, visto os diferentes aspectos envolvidos, que vão desde a escolha do cateter, até a manutenção do mesmo após a cateterização.
A pratica do CVI, com a utilização da técnica limpa, vem se firmando como uma das melhores alternativas para a promoção e prorrogação da vida de indivíduos com disfunções vesico-esfincterianas. Cabe ressaltar que esses indivíduos são cuidados, orientado e acompanhados enfermeiro.
Na busca de integralidade de ações de saúde, o enfermeiro desempenha um importante papel junto ao cliente, família e comunidade, pois as questões relativas ao CVI requerem capacidade clinica com visão ampliada para a reabilitação, habilidade na interação com o cliente e a utilização de uma didática adequada ao seu nível de compreensão.
No conjunto das ações de reabilitação, as valorizações das potencialidades do cliente ajudam-no a sentir-se seguro e independente para realizar e adequar a técnica, em função de suas habilidades psicomotoras e rotina de vida.
O conhecimento das características epidemiológicas dessa população e das principais doenças que levam a necessidade da realização do referido procedimento é imprescindível para o planejamento da assistência de enfermagem.
Dessa forma, foi estabelecido o seguindo objetivo para este estudo: caracterizar os clientes que utilizam o CVI como técnica limpa.
Método
Estudo de caráter quantitativo, retrospectivo, realizado em ambulatório de especialidades da Secretaria Municipal de Saúde de uma cidade do interior de São Paulo, que atende pessoas com deficiências físicas.
A população constitui-se da totalidade de pacientes registrados no Programa de Atendimento a pessoa com Bexiga Neurogênica, que utilizam o cateterismo vesical com técnica limpa. Dos 120 prontuários existentes, 75 puderam ser disponibilizados, pois estavam com retornos periódicos agendados para consultas de enfermagem e dispensação de cateteres uretrais descartáveis.
A coleta de dados foi realizada entre junho e julho de 2004, após aprovação do projeto pela Subcomissão de Ética em Pesquisa do curso de enfermagem do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas e também da chefia da unidade onde realizou-se a coleta e, para isso, foi utilizado com formulário especifico, em que constavam as iniciais do nome, registro do prontuário, sexo, idade, diagnostico medico e quem realizava o processo (Anexo I)
Os dados obtidos foram tabulados por processo manual, submetidos á análise descritiva e expressos em percentuais.
Resultados e Discussão
Das pessoas que utilizam o procedimento do CVI com técnica limpa, 61,3% são do sexo masculino e 38,7%, feminino. Tais dados são semelhando aos encontrado por Lelis6, com 62,8% masculino e 37,2%, feminino.
A execução da técnica do auto cateterismo vesical no homem é, de certa forma, mais simples do que na mulher, devido a visualização do meato uretral. Contudo, apesar de ser mais simples, se o cateterismo masculino não for bem orientado quanto ao uso de lubrificar e a importância de tracionar o pênis para “desfazer” a curva uretral distal, pode vir a provocar dano traumático na mucosa.
O homem deve utilizar cateteres flexíveis (plástico, nelaton, silicone etc) e os calibre podem variar de 8 a 14 fr7,8. Já as mulheres, além desses mesmos calibres e materiais, têm ainda outras opções, como cateteres confeccionados em vidro ou inox.
Não pertence ao escopo deste trabalho descrever as técnicas de cateterismo vesical masculino ou feminino, Ressalta-se que, sendo a técnica limpa, a melhor forma de fazê-lo deve passar pelo bem estar, seguranças, possibilidades e conforto do próprio paciente.
As faixas etárias compreendidas entre 21 e 40 anos, 41 e 60 anos e igual ou mais a 61 anos, apresentaram percentuais iguais de 25%, enquanto os adolescentes entre 13 e 20 anos apresentaram 16% e as crianças entre 6 e 12 anos, 9%.
No estudo de Lelis6, 62,8% e representado por adulto jovem com idade entre 20 e 40 anos e 20,1% por crianças com idade entre 3 e 12 anos.
Um dos objetivos de ensinar ao próprio individua a realização do seu cateterismo vesical intermitente, é devolver-lhe a autonomia que lhe foi subtraída quando perdeu o controle voluntario de sua micção.
Segundo Orem9, vários fatores interferem nas ações para o autocuidado, dentre as quais estão os que ela chama de Universais, como a idade. Uma das situações comuns observadas nos idosos que frequentam o Programa e o desejo de aprender para não depender ou não ser um peso pra família. Já o adolescente que faz o auto cateterismo vesical desde a infância, tende a relaxar e, se não for monitorado, ausenta-se do programa e reaparece já em quadro de insuficiência renal, Também a abordagem de ensino deve ser redimensionada segundo a faia etária do aprendiz. Ajustes de horários e de rotina diária serão necessários, de tal forma que a realização do referido procedimento se encaixe aos hábitos de vida desse cliente, ou mesmo de seus cuidados, como e o caso de pais que fazem o CAV em crianças no período solar. Enfim, são inúmeros os detalhes a serem considerados segundo a faixa etária em que cliente se encontra. Cabe aos enfermeiros possuir, além do conhecimento clinico indispensável, se sensibilidade de compreende-lo em seu ciclo vital.
Neste estudo, a doença de base mais frequente foi a lesão traumática de medula espinhal (47%), seguida por mielomeningocele (33%). Nos estudos de Wills10, as etiologias mais frequentes foram: esclerose múltipla, seguida por lesão de nervos, bexiga instável, lesão medular, ampliação vesical e, por ultimo, problemas prostáticos.
Acreditamos que tais diferenças se devam as características dos tipos de programas oferecidos pelos serviços pesquisados.
O cateterismo vesical intermitente, em cacos de bexiga neurogênica por lesão medulas, seja ela traumática ou congênita, já vem sendo divulgado na literatura de enfermagem brasileiro das quais destacamos Santos, em 1989¹¹ e Morooka, em 200¹², com lesado medulas, e Furlan, em 2003¹³, com portadores de mielomeningocele.
As complicações da bexiga, decorrentes do diabetes, e as relacionadas como outras doenças (5,3%), tais como distensão vesical pós-operatória, são ainda pouco conhecidas ou divulgadas em nosso meio.
A bexiga neurogênica diabética ocorre como uma consequência da neuropatia diabética autonômica. A perda da inervação da bexiga causa uma anormalidade funcional, dificultando seu esvaziamento completo. A presença de volume urinário residual inibe a presença da camada de muco protetora na superfície interna da bexiga. Isso, acrescido pela presença de glicose na urina, propicia o meio de cultura e a presença de infecções urinarias crônicas, que por sua levam a complicações renais¹4.
A retenção urinaria no pós-operatório, se não for diagnosticada, pode levar a danos irreversíveis na bexiga (bexiga neurogênica miogênica). Essa retenção pode ocorrer pelo uso de anticolinérgicos, que diminuem a capacidade de contração do detrusor; analgesia, que pode retardar o sinal de uma hiper distensão vesical; dor, que leva a pessoa não se mover e a evitar o relaxamento perineal; a posição supina, ou a falta de privacidade, inibindo a vontade de urinar; terapia intravenosa, que pode provocar um enchimento rápido da bexiga e, finalmente, os tipos de cirurgia, das quais se destacam as ginecológicas, por causa da localização próximo a bexiga¹5.
O procedimento e realizado pelo próprio cliente, em 81% dos casos, e em 19% pelo cuidados principal. Nos estudos de Lelis6, esse percentual é de 54,3% para o auto cateterismo e 45,7% para o cuidador.
Uma das explicações encontradas para o percentual elevado de clientes que se cateteram, é pela característica do serviço, que não perde o vinculo com seus clientes, mas, também, porque muitas dessas orientações para o auto cateterismo são feitas nos seus domicílios. Isso facilita a busca de locais adequados, privativos e confortáveis. Também o fato do serviço fornecer o material necessário (cateteres uretrais descartáveis ou cateter de inox) para a realização do procedimento, uma vez que as questões financeiras tem sido fator impeditivo nas ações do autocuidado, que envolvem custos extras no orçamento familiar.
É interessante ressaltar que fazem parte do programa um adoslecente com deficiência visual (DV)t total, e um idoso com DV parcial, que conseguem realizar o autocateterismo. Isso mostra que certar condições físicas nem sempre impeditivas quando a necessidade ou a motivação de ser independente e maior.
Conclusão
Os resultados obtidos neste estudo nos apontam, para uma população predominantemente masculina, adulta, portadora de deficiência física e independente no auto cateterismo vesical intermitente com técnica limpa.
Considerações Finais
A assistência de enfermagem ao cliente portador de disfunções vesico-esfincteriano de origem neurológica, ou bexiga neurogênica, e uma área ampla, que envolve, desde a competência clinica ate a compreensão individualizada, social, familiar e cultural do cliente.
Pela vivencia nesta área, podemos afirmas que não e só a literatura que e escassa, mais a atuação do enfermeiro e praticamente inexistente.
Marvulo5, após realizar estudo sobre a busca de evidencias para a pratica de enfermagem no cateterismo uretral, afirma que” embora em outros países a produção científica sobre esse assunto seja significativa, muitos artigos salientaram a discrepância entre o conteúdo da literatura e a pratica vigente entre os enfermeiros. Isso mostra que, não só se faz necessária a realização de pesquisas, como também a divulgação e atualização continua dos enfermeiros.”
 


References


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