Artigo Original 3

Ciliana Antero G. da Silva Oliveira, Júlia Cristina Rodrigues, Karina Nunes da Silva


Identificação do Nível de Conhecimento de Pacientes com Colostomias para a Prevenção de Possíveis Complicações

Resumo
O objetivo deste estudo foi identificar o nível de conhecimento do autocuidado do paciente colostomizado, para prevenção de possíveis complicações. Colostomia é a exteriorização de uma porção do intestino, realizada na parede abdominal. Pesquisa qualitativa realizada no período de 08 de janeiro a 27 de fevereiro de 2007 na Assistência Médica Especializada – AME. A população foi composta por 11 participantes, sendo 05 masculinos e 06 femininos, com idade entre 20 e 85 anos, com bolsa drenável. Confirmou-se que é essencial a detecção precoce e o tratamento adequado das complicações no estoma. É importante a educação do paciente e seus familiares, no intuito de reduzir o aparecimento de muitas complicações que influenciam diretamente na qualidade de vida do cliente. É o que comprova o grau de importância na implementação de uma cartilha para o autocuidado do paciente colostomizado e seus familiares, orientando-os quanto aos cuidados com a pele ao redor do estoma.
Palavras-chave: Colostomia. Autocuidado. Educação do paciente.
Abstract
The aim of this study is to assess the colostomy patient’s level of self-care knowledge to prevent possible complications. Colostomy is the exteriorization of part of the intestine performed on the abdominal wall. This qualitative study was performed between January 08 and February 27, 2007 at the Specialized Medical Assistance (AME) facility, Brazil. The sample consisted of 11 patients (5 males, 6 females) aged 20 to 85 years, using a drainable bag. It was confirmed that early detection and appropriate treatment of clinical manifestations of complications, as well as the education of patients and their family members, are essential to reduce many complications that have a direct impact on the client’s quality of life. This shows the importance to develop a self-care guide for colostomy patients, orienting patients and their family members in the care of the peristomal skin.
Key words: Colostomy. Self Care. Patient Education.
Introdução
A pessoa com colostomia é aquela que precisou realizar uma abertura na parede abdominal, denominada estoma, para desviar as eliminações intestinais, podendo ser temporária ou permanente. Estomia ou estoma significa boca ou abertura, é utilizada para indicar exteriorização de qualquer víscera oca através do corpo, por causas variadas¹. Há três tipos de colostomia: Colostomia ascendente, Colostomia transversa e Colostomia descendente1.
São várias as preocupações com os cheiros, os ruídos, a reintegração social e profissional, as freqüentes idas ao banheiro, condições periestoma e até mesmo a atividade sexual1.
Embora as colostomias sejam procedimentos cirúrgicos relativamente simples, apresentam várias complicações, desde simples irritações cutâneas até problemas potencialmente letais1. São eles:
• irritação cutânea, que pode ser evitada pelo uso de bolsa e protetores cutâneos, para evitar o contato entre as fezes e a pele;
• estenose por abertura insuficiente da parede abdominal, angulação do colón exteriorizado por passagem sinuosa pelos diferentes planos da parede abdominal, estenose temporária decorrente do edema da boca cólica e processo inflamatório, que ocorre na serosa da alça exteriorizada;
• Infecção da pele e/ou subcutânea, causando celulite;
• hérnia colostômica, principalmente nas colostomia terminais;
• necrose e retração do coto cólico, que ocorrem devido à falta de suprimento sangüíneo no coto exteriorizado. As causas podem ser várias: ligadura inadvertida das artérias que irrigam o segmento, exteriorização do coto cólico com tensão tal que prejudique a irrigação e abertura muito estreita da parede abdominal, causando constrição do cotocólico;
• fístula, evento raro que ocorre como resultado da fixação da alça à parede abdominal ou a partir de pequenos focos de necrose na parede da alça;
• prolapso ou procedência do coto cólico, a complicação mais freqüente nas colostomias em alça².
A cirurgia, de modo geral, representa uma invasão física e psicológica à intimidade do paciente, no qual o mesmo se sente invadido e agredido.
A compreensão da condição crônica da pessoa com estoma considera o desvio das eliminações fecais e a alteração da imagem corporal. Esta condição implica em profundas mudanças do estilo de vida, vivenciando uma nova situação, exigindo assistência profissional com propósito de colaborar com sua reinserção social³.
As condições clínicas que levam à confecção de um estoma intestinal estão relacionadas às doenças malignas ou benignas dos órgãos, podendo ser definitivas ou temporárias.
O local para a construção de uma colostomia depende do motivo que levou à necessidade de derivação fecal, a sua seleção no pré-operatório tem fundamentação importante e deve sempre ser enfatizado que é necessário ser realizado uma demarcação prévia.
A colostomia temporária pode ser decorrente de um trauma ocasionado por arma branca ou de fogo na região colônica, e a colostomia permanente normalmente acontece nos casos de neoplasia no cólon ou reto, cuja conseqüência é a amputação do trato intestinal comprometido4.
A característica desses pacientes é a perda da continência intestinal, resultando em saída constante das eliminações intestinais pelo estoma, levando ao uso constante de uma bolsa de colostomia. Entretanto, nem sempre esses clientes possuem uma bolsa adequada para evitar incômodos resultantes dessa alteração, fato este que compromete suas relações sociais4.
Além de saber cuidar do estoma, precisa ter acesso a recursos, tais como a provisão dos dispositivos ou sistemas coletores compostos por placas e bolsas, uso de cinto para evitar que a bolsa se solte da placa, adequações alimentares, vestuário que não aperte a bolsa ou descole a placa; minimização dos gases e odores intestinais e cautela durante as interações sociais, devido à incontinência.
Portanto, a confecção de uma colostomia acarreta muitas mudanças na vida da pessoa. São elas: a necessidade de seu autocuidado, aquisição de material apropriado, adequação alimentar, alteração da imagem corporal e alterações das atividades sociais, sexuais e cotidianas.
A exteriorização do órgão requer do paciente uma série de cuidados e manutenções que estão relacionadas à higiene da pele para manter a sua integridade ao redor do estoma; observação das características normais de um estoma em relação à cor, forma, tamanho e aspecto da mucosa; troca de dispositivos coletores ou bolsas e o esvaziamento do conteúdo intestinal coletado pela bolsa.
Todos estes cuidados devem ser aprendidos pela pessoa com colostomia, durante o período de hospitalização, pela necessidade de sua continuidade após a alta hospitalar.
Assim, para minimizar o impacto social advindo por esses incômodos e complicações, a atenção dispensada pelos profissionais que participam na assistência aos pacientes com colostomia é relevante, no sentido de proporcionar uma reabilitação que vise adaptá-lo à sua nova condição de vida.
O processo de reabilitação desenvolvido pelo profissional deve visar principalmente: a continuidade do tratamento; desenvolver a capacidade de aprendizado para o autocuidado; contribuir para o retorno da pessoa às atividades; incentivar o ajuste ao novo estilo de vida e assegurar o empenho da família e da comunidade no processo de reabilitação.
O paciente necessita de um tempo interno para viver o seu luto, relacionado com a mutilação e a perda sofrida5.
Reabilitação significa preparar o colostomizado para lidar com todos os medos, fantasias e ansiedades, reintegrando-o às condições de vida, o que pode ser alcançado com a implementação de programas educacionais.
Objetivo
Identificar o nível de conhecimento de pessoas com colostomia visando a prevenção de complicações.
Métodos
Este trabalho é uma pesquisa de tipo exploratória/descritiva.
O estudo foi realizado na Assistência Médica Especializada (AME)/Guaratinguetá-SP. Sendo que a população considerada contou com pacientes de ambos sexos, com idade entre 20 e 85 anos, que foram submetidos a uma colostomia, realizado nas três fases seguintes
• Fase 1: foram incluídos 11 pacientes de ambos os sexos, com colostomia, que freqüentavam a AME de Guaratinguetá. Os pacientes foram avaliados por meio de um questionário composto de seis perguntas, a fim de identificar o nível de conhecimento no autocuidado da colostomia.
• Fase 2: foi feito um treinamento com esclarecimentos do autocuidado, objetivando a prevenção de possíveis complicações.
• Fase 3: foi elaborada uma cartilha para a educação dos pacientes colostomizados, visando orientações simples sobre os cuidados com a bolsa de colostomia.
Foram observados principalmente os aspectos éticos, sendo que a coleta de dados foi marcada com antecedência por telefone, com dia e hora determinados pela instituição, e disponibilidade do paciente. O instrumento de coleta de dados que foi um questionário simples e objetivo. Os indivíduos que atenderam aos critérios dos estudos foram informados sobre as implicações destes e assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, obedecendo aos critérios da resolução 196/96, garantindo o anonimato, bem como não haver prejuízos pela não participação ou desistência.
Resultados e Discussão
O trabalho foi iniciado com um questionário composto por seis perguntas, a fim de identificar o nível de conhecimento no seu autocuidado e quais as complicações apresentadas pelos pacientes que freqüentam a AME. Após a análise, foi constatada a necessidade da confecção de uma cartilha contendo orientações objetivas sobre os cuidados que as pessoas com colostomia devem ter com a bolsa, tendo como foco a identificação do nível de conhecimento de pacientes com colostomia, para a prevenção de possíveis complicações. As entrevistas foram realizadas no período de 08/01/ 2007 a 27/02/2007, com a participação de 11 pacientes, sendo 05 masculinos e 06 femininos, com idade entre 20 e 85 anos. Todos os pacientes usavam bolsa drenável, estoma definitivo, variando entre 04 meses e 12 anos. Constatou-se que 100% dos pacientes não sabiam o que era uma colostomia, classificando como um “problema no intestino”, sendo que a maioria definiu como uma “doença”, algo amplo e confuso. Verificou-se que 100% dos entrevistados concordavam com a importância do treinamento para o autocuidado, para facilitar a sua vida que sofreu uma alteração significante.
A monitorização e a avaliação do estoma é uma tarefa complexa que exige do profissional a observação do maior número de informações possíveis para adequação do cuidado6.
Observou-se que 64% dos entrevistados não examinavam a pele ao redor da estomia e os 36% dos entrevistados que examinavam, não o faziam como uma importante forma de prevenção de possíveis complicações e sim como um ato mecânico de sua rotina.
Manipular e cuidar da colostomia com uma periodicidade maior e de forma planejada, por meio dos métodos propostos, torna possível a idéia de normalidade, e muitas vezes, até o esquecimento da sua nova condição7.
Foi observado que 91% dos pacientes já apresentaram algum tipo de complicação, por falta de esclarecimentos e treinamento. Segundo Santos et al acredita-se que a incidência de tais complicações pode ser minimizada, desde que medidas preventivas relativas á técnica cirúrgica e aos cuidados pós-operatório ministrados por especialistas em assistência a pessoa com estoma sejam tomadas.
Neste serviço, o primeiro contato com o paciente é geralmente realizado pela asistente social, que faz o acolhimento inicial ao paciente e familiares, mas a enfermagem tem como um de seus principais objetivos o cuidado integral com o paciente.
A análise das respostas obtidas evidenciou um nível de conhecimento insatisfatório sobre a identificação do que é uma colostomia e o autocuidado para a prevenção das possíveis complicações.
Considerações Finais
Baseado nas respostas, verificou-se as necessidades dos pacientes com colostomia perante as complicações identificadas, sendo fator determinante a implementação de uma cartilha específica, com a finalidade de auxiliar na educação desses pacientes, seus familiares e cuidadores, com orientações práticas, simples e eficientes a respeito das precauções sobre o cuidado, principalmente com a pele periestoma, objetivando evitar quaisquer complicações.
Reconhece-se a escassez de literatura específica e, notadamente, as orientações quanto ao autocuidado e possíveis complicações. Segundo Santos et al , o tema acaba sendo discutido muito mais à luz da literatura médica em cirurgia voltada para o estoma como conseqüência da impossibilidade do alcance de uma das metas mais importantes, qual seja a preservação esfincteriana.
Mostra-se também que existem diversas dificuldades para os indivíduos com estomas voltarem ao convívio social e laborativo após a realização da cirurgia. Eles não sabem, muitas vezes, conviver com essa mudança física. Alimentação, sexualidade e controles das eliminações fecais, assim como lidar com amigos, família e emprego, são questões que geralmente ficam sem resposta quando saem da alta hospitalar. Esses problemas podem ser minimizados com orientações e informações específicas, fornecidas pelos profissionais de saúde.
Figura 1: Algumas complicações encontradas durante a avaliação dos pacientes:

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Hérnia

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Dermatite

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Hérnia

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Prolapso




References


Santos, VLCG; Cesaretti, IUR. Assistência em Estomaterapia: cuidando do ostomizado. São Paulo, Rio de janeiro, Belo Horizonte, Editora Atheneu, 2001. p. 1-2.

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Crestani MM, D’Avila FS. Pessoas Ostomizadas: a construção de sua etinerária terapêutica. Revista Nursing. 2006;99(8):34.

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Lima TGS, Lacombe D. Uso do Método de Irrigação e Sistema Oclusor pelo Colostomizado: Avaliação após três Anos de Seguimento. Revista Estima. 2004;.2(2):17-21.

Santos, VLCG, Cesaretti, IUR. Assistência em Estomaterapia: cuidando do ostomizado. São Paulo, Rio de janeiro, Belo Horizonte, Editora Atheneu.2001. p.30-1.


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