Artigo Original 1

Raquel Martins Pereira, Maria das Dores Monteiro da Silva, Luciana Helfer Garcia, Ciliana Antero G. Oliveira Silva


A Importância da Educação do Paciente Diabético no Cuidado com os Pés

Resumo
Diabetes Mellitus (DM) é uma doença metabólica que ocorre devido aumento da glicose no sangue, resultante da disfunção na excreção e ação da insulina ou ambos. Atualmente, o DM é um problema de saúde pública, sendo essencial a detecção precoce, controle de glicemia, educação do paciente e família, reduzindo assim complicações como úlceras, infecções, perda da biodinâmica dos pés e até amputações, que influenciam na qualidade de vida. É um estudo exploratório/descritivo de natureza qualitativa, realizado no período de 17 de janeiro a 12 de maio de 2006, no Ambulatório de Enfermagem das Faculdades Integradas Teresa D’Ávila, em que dez pacientes participaram do estudo, sendo de ambos os sexos, com idade entre 49 e 77 anos, come DM acompanhado de “Pé diabético”, onde foi identificado o nível de conhecimento desses pacientes em relação aos cuidados com os pés e foi desenvolvido uma cartilha educativa, visando orientações sobre os cuidados com os pés.
Palavras-chave: Prevenção Primária. Diabetes Mellitus. Pé diabético.
Abstract
Diabetes mellitus (DM) is a metabolic disorder that occurs due to an increase in blood glucose, resulting from abnormalities in insulin secretion and/or action. Nowadays, DM is a public health problem. Diabetes early detection, glycemic control, and the education of patients and their family members are essential to reduce diabetes-related complications such as ulcers, infections, loss of dynamic function of the foot, and even amputations that have an impact on quality of life. This qualitative, descriptive exploratory study was performed between January 17 and May 12, 2006 at the outpatient facility of the Faculdades Integradas Teresa D’Ávila (FATEA), Brazil. Ten patients of both sexes, aged 49 to 77 years and with diabetic foot participated in this study. Patients’ knowledge about foot care was evaluated and an educational guide was developed to assist in the care of the diabetic foot.
Key words: Primary Prevention. Diabetes Mellitus. Diabetic Foot.
Introdução
Diabetes é uma doença conhecida desde a Antigüidade. Há dois mil anos Hipócrates descreveu-a como um distúrbio, pois observou que a urina continha quantidades excessivas de açúcar, embora o diabetes seja uma doença infinitamente mais complexa do que o excesso de açúcar na urina1.
O Diabetes Mellitus (DM) é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por hiperglicemia resultante de defeitos da secreção insulínica, da ação insulínica, ou de ambos. Esta hiperglicemia crônica é relacionada a longo tempo com alterações no metabolismo dos carboidratos, lipídeos e proteínas; causando danos, disfunções e falências múltiplas2.
O diabetes, com suas complicações, é considerado um problema de saúde pública, pois encontra-se entre as primeiras causas de morte em vários países do mundo2.
É considerado um dos mais graves problemas mundiais de saúde na atualidade, tanto em relação ao número de pessoas afetadas, incapacitações, mortalidade prematura, como em custos envolvidos no controle e tratamento de suas complicações. Em 1995, existiam 135 milhões de diabéticos no mundo, mas, conforme as projeções de King et al, este número poderá chegar a 300 milhões em 2025. Acomete cerca de 7,6% da população urbana brasileira entre 30 e 69 anos de idade. Aproximadamente 50% dos pacientes desconhecem o diagnóstico e 24% dos pacientes conhecidamente tem diabetes mellitus não fazem qualquer tipo de tratamento3.
Atualmente já está estabelecido na literatura que o diabético que desenvolve uma úlcera crônica é aquele que possui a complicação chamada ‘pé diabético’. O pé diabético é uma das complicações do DM, de alto impacto econômico e social, caracterizado por lesões decorrentes de neuropatia, isquemia e infecção. Muitas de tais complicações seriam facilmente prevenidas por meio da educação do paciente com diabetes como controle glicêmico e cuidados com seus pés. Caracterizado por presença de lesões no pé decorrente de neuropatia periférica (90% dos casos), doença arterial e deformidades, representando uma parcela significativa das internações hospitalares prolongadas, morbidade e mortalidade. Tais complicações têm caráter crônico, ocorrem em média dez anos após o aparecimento da doença e, associadas a infecções, podem evoluir para amputações não traumáticas de membros inferiores. As amputações são de maior prevalência em indivíduos com DM, e apresentam de 15 a 46 vezes maior ocorrência quando comparados àqueles com glicemias normais4.
A cada minuto, duas amputações ocorrem no mundo em função do diabetes. Um paciente diabético, uma vez que ele tenha desenvolvido uma úlcera, tem 58 vezes mais chances de ter uma nova lesão. Se ele sofrer uma amputação, em três anos, terá 50% de chance de uma nova amputação. Outro fato importante é a mortalidade. O paciente amputado tem 58% mais chances de morrer precocemente5.
Independente da classificação da úlcera, fazse obrigatório o processo educativo do paciente e seus familiares. Todo paciente com “pé diabético” deve ser exaustivamente orientado com relação a todas as alterações presentes no seu pé. Devem ser esclarecidos quanto às implicações da neuropatia, da insensibilidade de seus pés, da doença vascular, dos riscos de uma tinha interdigital, deve ser educado quanto às medidas de higiene com os pés, principalmente o corte das unhas, de maneira suficiente para alcançar mudanças de atitude e de hábitos para os pacientes e familiares2.
As atividades de educação em saúde têm um papel importante a ser desempenhado no que diz respeito à mudança de costumes. Quando se fala sobre o assunto é preciso lembrar que as pessoas pensam em cuidados pessoais que evitam doenças, dando a idéia que a saúde é um problema só individual e requer educação das pessoas. Assim, a educação seria a forma de se obter mudanças de algumas características individuais, como a não observância de cuidados pessoais e necessários à promoção da saúde6.
Objetivos
Identificar o nível de conhecimento do paciente diabético em relação aos cuidados com seus pés.
Métodos
Estudo exploratório/descritivo de natureza qualitativa. Os dados foram coletados no período de 17/01/05 a 12/05/06 no ambulatório de enfermagem das Faculdades Integradas Teresa D’Ávila - FATEA – Lorena-SP.
A casuística foi representada por dez pacientes diabéticos de ambos os sexos, com o chamado “pé diabético”. O instrumento de coleta de dados foi constituído de seis perguntas: conceito de diabetes e os cuidados básicos com os pés. Destaca-se que o estudo cumpriu os princípios éticos para pesquisas que envolvem seres humanos.
Resultados e Discussão
Quando foi perguntado “O que é diabetes?”, foi observado que o conceito básico do diabetes “açúcar no sangue” foi citado por grande parte dos pacientes, porém, muitos desconhecem as causas, manifestações e complexidades desta doença, e surpreendentemente, alguns desconhecem a doença.
Responderam: “muito açúcar no sangue”; “não sei”; “não sei, mas tem que parar de comer muita coisa”; “doença que não pode comer doce ou comida gordurosa”;
Quando foi perguntado “Porque o diabético necessita de cuidados especiais com os pés?”, os relatos demonstram um déficit acentuado no conhecimento dos cuidados especiais com os pés. Muitos entrevistados acham que não necessitam de nenhum cuidado com os pés.
Responderam: “por causa do peso e da má circulação”; “não sei dizer”; “não precisa de nenhum cuidado especial”; “não sei”; “porque quando machuca demorara pra cicatrizar”.
Problemas comuns nos pés de qualquer pessoa não representam riscos, porém, para os pacientes diabéticos, significam possíveis complicações devido à tríade: neuropatia, angiopatia e maior risco para infecção, o que pode levar à perda da biodinâmica dos pés e até amputações do membro afetado7.
Quando foi questionado sobre o exame diário dos pés, os entrevistados responderam que examimam, porém, de forma incorreta e na freqüência inadequada.
Responderam: “não todo dia, mas olho”; “não gosto de olhar”; “olho o pé todo dia com o espelho para ver se está cicatrizando”; “sim, olho”; “sim, passo a mão”; “não”.
Os pés devem ser inspecionados diariamente a fim de localizar anormalidades como áreas vermelhas, inchaço, rachaduras, calosidades. Uma vez detectado o problema ele torna-se um paciente de risco, ele deverá ser conscientizado dos cuidados especiais que deve ter a fim de evitar complicações7.
Quando foi perguntado “Como o Sr (a) realizada higiene dos pés, como corta as unhas e que tipo de meias ou sapatos utiliza?”, nesta última questão, foi observado conhecimento básico na higienização, porém, em relação ao corte das unhas, calçados e meias, foi verificado total desconhecimento de informações essenciais para diabéticos.
Responderam: “água e sabonete”; “com bucha e sabonete”; “lavo com água e sabão, enxugo bem o vão dos dedos”; “na hora do banho com água e sabão”;
Responderam: “corto com alicate redondinho”; “com o cortador, corto bem os cantos”; “corto com o cortador de unha de qualquer jeito, tiro sempre os cantos”.
Responderam: “botina para proteger que não aperte e qualquer meia”; “chinelo de dedo para não apertar”; “todo tipo”.
A higiene dos pés deve ser realizada diariamente com muito cuidado, utilizando sabonete neutro, enxaguando e removendo todo resíduo de sabonete ou sujidade, durante o banho. Secar bem os pés com uma toalha macia, principalmente entre os dedos, sem friccionar. Este momento pode ser aproveitado para massagear pernas e pés, com creme hidratante apropriado, ou indicado pelo médico, somente na planta e dorso dos pés, o corte das unhas deve ser realizado de forma horizontal e não muito curtas, de preferência apenas lixá-las8.
Há um consenso de que “pé diabético” é uma complicação prevenível a partir da atuação de um grupo multidisciplinar para a educação do paciente9.
Considerações Finais
Baseado nas respostas, verificou-se um nível de conhecimento baixo e limitado dos pacientes diabéticos, ou seja, devido ao baixo nível de conhecimento tanto da DM como dos cuidados necessários com os pés, muitos desenvolveram o “Pé diabético”, entre outras complicações. Sendo este fator determinante na produção de uma cartilha com a finalidade de auxiliar na educação dos pacientes ou familiares, com orientações práticas a respeito das precauções sobre o trato para com os pés, objetivando evitar quaisquer complicações e, principalmente, possíveis amputações.



Referências


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Cordeiro S. Vacina: nova esperança para diabéticos. Revista Plenitude. 2005;119: 24-8.

Nursing- Revista Técnica Cientifica de Enfermagem, n.º 79, ano 7 Dezembro 2004.

Dealey C. Cuidando de feridas. São Paulo: Atheneu, 1996.

Gamba MA. Amputações por Diabetes Mellitus: Uma prática Previnível. Acta Paul Enf. 1998; 11:92-100.

Calsolari MR, Castro FR, Maia MR, Maia CPF, Castro VA, Reis R, Ferreira RA et al. Analise Retrospectiva dos Pés de Pacientes Diabéticos do Ambulatório da Santa Casa de Belo Horizonte, Minas Gerais. Arq Endocrinol Metab. 2002;46(2):302


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