Bioética do cuidar: a ênfase na dimensão relacional

Elma Lourdes Cmpos Pavone Zoboli


Para a noção de cuidado e cuidar, ao longo da história, como assinala a segunda edição da Enciclopédia de Bioética , têm concorrido várias abordagens. Dentre elas destacam-se a mitológica, a filosófica, a literária e a psicológica que geram distintas estruturas explicativas para a ética do cuidar e revelam que não ha um entendimento único de cuidado, mas um conjunto de concepções que se unem por ideias, narrativas e temas.
De maneira geral, o cuidado pode ser entendido como toda ação que contribui para promover e desenvolver o que faz viver as pessoas e os grupos. A palavra “cuidado” deriva do latim cura ou, de sua forma mais antiga, mera. Era usada num contexto de relações de amor e amizade, expressando uma atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação pela pessoa amada ou por um objeto de estimação. Outra origem apontada para “cuidado” é cogitare-cogitatur, que significa cogitar, pensar, colocar atenção, mostrar interesse, revelar uma atitude de desvelo e de preocupaçãp².
Assim, por sua própria etimologia, a palavra “cuidado” tem duas significações, intimamente ligadas entre si. A primeira indica uma atitude de desvelo, de solicitude e de atenção com o outro e a segunda denota uma preocupação e uma inquietação advindas do envolvimento e do vínculo de responsabilização para com o outro por parte de quem cuida. Ou seja, cuidar não é um ato isolado, mas constitui um modo de ser, a forma como a pessoa se estrutura, se realiza no mundo com os outros e como embasa as relações que estabelece com as coisas e as outras pessoas.
Cuidar é mais que um ato ou um momento de atenção, zelo e desvelo. uma atitude. E por atitude, nessa situação, entende-se a fonte geradora de muitos atos que expressam a preocupação, a responsabilização radical e a aproximação vincular com o outro. Cuidar, portanto, configura uma atitude que possibilita a sensibilidade para com a experiência humana, reconhecendo o outro como pessoa e sujeito.
Ao se entender o cuidado como esse modo de ser essencial, não temos cuidado, dispensamos cuidados ou prestamos cuidados, mas somos cuidado. Esse entendimento de que o ser humano é essencialmente cuidado e que cuidar é central para as pessoas e suas vidas remonta à Roma antiga, como retratado na fábula greco-latina de Higino que conta².
“Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma ideia inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele, o que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se, então, uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: você, Júpiter, deu-lhe o espírito, recebera, pois, de volta este espírito por ocasião da morte da criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; recebera, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cuidado, foi quem, por”. Primeiro moldou a criatura, ficara sob seus cuidados enquanto viver. E uma vez que entre vocês ha acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de Húmus, que significa terra fértil.”
Essa alegoria marca que a característica mais notável da origem, vivência e finalidade da humanidade esta no cuidado. E isso traz profundas implicações para a ética e a bioética. O cuidado não deve ser somente um sentimento de dever, mas uma resposta de empatia a determinada situação.
E é essa capacidade de empatia, de colocar- se no lugar do outro, aproximando-se dele, que distingue o profissional “cuidadoso” daquele, simplesmente, com disposição para o cuidado. Essas pessoas “cuidadosas” preocupam-se por aqueles que são alvo seu cuidado, que, por sua vez, sentem-se realmente importantes para alguém.
A atitude de cuidado confere a atenção em safide uma tonalidade diferente, pois a relação não é mais sujeito objeto, mas sujeito-sujeito. A proximidade, o acolhimento e o vinculo fazem da relação rna.is que uma intervenção, tornando-a uma convivência, uma interação de conjunção. Vive-se a experiência do valor intrínseco das pessoas e não de seu valor utilitário.
Durante muito tempo, somente os fatos importaram, não havendo espago para o que não era objetivamente mensurável. Entretanto, o mais característico das pessoas é sua capacidade de se emocionarem, de se envolverem e de se comoverem. Os profissionais de safide precisam superar o modo de ser que os leva a se comportarem corno meros operadores de recursos tecnológicos, decifradores de exames, executores de rotinas, manuais, normas e procedimentos. Precisam conceder e consentir direito de cidadania a sua capacidade de sentir o outro, dando espago a logica da cordialidade e da gentileza, em lugar da logica da conquista, da dominação e do uso utilitário das coisas e das pessoas2.
Cabe alertar que isso não quer dizer deixar de apostar nos avanços tecnológicos, não significa abandonar a execução competente de rotinas e procedimentos, a solicitação de exames, a prescrição de tratamentos e da assistência de enfermagem. Mas, implica renunciar a ganancia pelo poder que reduz tudo e todos a objetos desconectados da singularidade humana e passar a ver a pessoa, como sujeito em sua totalidade. Significa recusar-se a todo despotismo e a toda dominação, impondo limites a obsessão pela eficácia a qualquer custo, sabendo quando parar e tendo humildade para admitir que se pode estar errado ou simplesmente não saber. Quer dizer derrubar a barreira da racionalidade fria e abstrata para dar lugar ao cuidado, deixando de se esconder atrás dos equipamentos, das rotinas, dos procedimentos e das normas para encarar 0 rosto da pessoa que clama por uma resposta de responsabilização.
É urgente uma bioética do cuidar, ou seja, é necessário conceder centralidade ao cuidado, pois nas estruturas humanas as pessoas têm, constantemente, perdido espago para o valor econômico. Os serviços de saúde estão cada vez mais focados nos ganhos, nas pesquisas, na tecnociéncia, nas inovações, na contenção dos custos, nas normas, na padronização de procedimentos e perdem de vista as pessoas. Isso não implica negar a importância e a necessidade dessas coisas, mas o que se advoga é que elas devem ter por motivação e finalidade a pessoa da qual se cuida.
Segundo Carol Gilligan3, os elementos chaves da bioética do cuidar incluem: a consciência da conexão entre as pessoas com o reconhecimento da responsabilidade de uns pelos outros; o entendimento de que a moralidade dos atos deve ser analisada em consequência da consideração deste relacionamento de responsabilização e a convicção de que a comunicação é o modo de solucionar os conflitos.
A busca de uma solução não-violenta de conflitos leva a que se veja as pessoas envolvidas em um conflito ético não como adversários numa pendência de direitos, mas como participes interdependentes de uma rede de relacionamentos de cuja continuidade depende a manutenção da vida de todos. Assim, a solução dos conflitos consiste em ativar esta rede de relações pela comunicação cooperativa e não competitiva, visando a inclusão de todos mediante o fortalecimento e não o rompimento das. conexões. Os conflitos éticos são problemas que envolvem as relações humanas e o uso da violência no seu enfretamento e solução, ainda que a micro violência do cotidiano, é destrutiva para todos. Somente a centralidade do cuidado torna possível o fortalecimento do eu e os outros.
Conferir centralidade ao cuidado não conforma tarefa fácil, como bem ilustra a História dos Astronautas, traduzida do Journal of Medicine and Philosophy4:
“Enquanto a astronauta Joana e seus dois companheiros, Davi e Manolo, estavam em orbita ao redor da lua, ocorre um problema com o sistema de suporte de vida de Joana. Ela contata o controle geral, mas as tentativas de a ajudarem falham e não resta mais nada a não ser manter-se em contato, conversando até que a sua morte sobrevenha. Seus companheiros reagem a situação diferentemente, denotando seu modo de ser.
Manolo considera que tem para com Joana a obrigação de assegurar que se faca todo o possível para salva-la, assim refaz todas as tentativas que já previamente se mostraram inúteis para corrigir o problema. Finalmente, quando esta plenamente satisfeito de que nada pode ser feito, conclui que fez tudo que estava a seu alcance, que cumpriu sua obrigação e, ponderando que não pode fazer mais nada, retorna a seus outros afazeres.
Davi também tenta todo o possível para salvar a Vida de Joana e, finalmente, quando percebe que realmente nada pode ser feito para salva-la, continua no seu cuidadoso compromisso para com Joana. Durante suas tentativas, espera fervorosamente que o mecanismo de suporte de vida seja arrumado e imagina a situação de Joana, seu sofrimento, torcendo para que possa encontrar pensamentos consoladores, desejando que saiba quanto significa para que quanto esta lamentando sua perda. Quando chega a conclusão que nada pode ser feito, sente angustia em seu coração. Continua tomado por seus pensamentos e sentimentos para com Joana. Por fim, não mais se empenha em tentativas infrutíferas ou sem esperança, reconhecendo que a situação esta definida.”
Apesar de Manolo e Davi agiram da mesma forma na aplicação dos procedimentos, Davi possui algo que Manolo não tem: demonstra cuidado, preocupação, responsabilização em relação a Joana e não meramente um sentimento de dever. A ética vai além da consciência profissional, porque rem a ver com o compromisso de cuidado. Enquanto a consciência leva a trabalhar com afinco para cumprir obrigações e aderir estritamente aos deveres e aos princípios, o compromisso de cuidado cobra uma responsabilização radical pela promoção da pessoa.
Por fim, vale lembrar que como a bioética do cuidar apoia sua visão da condição humana na capacidade e na necessidade das pessoas de se importarem, se responsabilizarem e se vincularem mutuamente, ela confronta e desafia os sistemas de pensamento racionalistas, abstratos e impessoais que são detentores de abrangente ascendência social, ética, politica e religiosa e talvez por isso lhe tem tocado o lugar de contracultura.

References


Reich WT, org. Bioethics Enciclopedya. 2' ed. [CD ROM]. New York: Mac Millan Library; 1995b. History of the notion of cate.

Boff L. Saber cuidar: ética do humano: compaixão pela terra. São Paulo: Vozes; 1999.

Gilligan C. Uma voz diferente: psicologia da diferença entre homens e mulheres da infância à idade adulta. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; 1982.

Veatch R, ed. The ethics of care. Journal of Medicine and Philosophy: 1998; 23.


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